"127 Horas" ilustra ritual de passagem

Indicado ao Oscar 2011, James Franco interpreta alpinista encurralado em cânion

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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James Franco com o braço preso no filme "127 Horas": personagem reavalia vida
Em 2003, o alpinista norte-americano Aron Ralston, 27 anos, fazia trekking pelo Parque Nacional Canyonlands, no estado de Utah, quando caiu numa fenda e teve o braço preso por uma rocha. Ficou mais de cinco dias sozinho, com pouca água e comida, até conseguir ser resgatado a duras penas e, na sequência, escrever um best-seller sobre a experiência. O desafio do diretor Danny Boyle (ganhador do Oscar por "Quem Quer Ser Um Milionário?") foi fazer um filme basicamente sobre o tempo em que Ralston, interpretado por James Franco , esteve encurralado no cânion Blue John, sem poder se mexer. Conseguiu: "127 Horas" entra em cartaz nesta sexta-feira (18) e é um dos protagonistas do Oscar 2011 , com seis indicações ( veja a lista completa dos indicados no infográfico ).

"127 Horas" começa contrapondo a solidão do apartamento de Ralston com a rotina de uma cidade grande. Enquanto ele se prepara para sair de casa, multidões se aglomeram nas ruas e calçadas da metrópole. Vê-se tudo ao mesmo tempo, com a tela dividida em três, numa escolha que a princípio parece exagerada, mas aos poucos se justifica. A estética, no entanto, é puro Danny Boyle, que apurou seu estilo ao longo de "A Ilha", "Extermínio" e "Trainspotting": velocidade de videoclipe, cores berrantes e música alta, tudo um nível acima do razoável.

A situação é especialmente delicada no prólogo, com cara de comercial de desodorante. Ralston carrega o carro e ruma para o cânion, onde acorda cedo no sábado pela manhã, pega a bicicleta e pedala num "ritmo radical". Fica claro que ele conhece bem a região, ainda mais depois de ajudar duas garotas perdidas (e deslumbradas com o guia). O espírito jovem dos filmes de Boyle aparece com força total, mas a introdução dura pouco, dez minutos, e já vemos o rapaz preso no cânion.

Uma tomada aérea dá a dimensão do problema: a fenda em que aconteceu o acidente é apenas um risco na imensidão do parque desértico. Gritos de socorro não têm chance alguma, até porque ele não avisou ninguém para onde ia. Ralston esvazia a mochila e não há muita coisa útil: pouca água, comida, câmera, cordas, canivete e instrumentos de alpinismo de qualidade duvidosa. Ele sabe o que fazer para se soltar – trabalha como voluntário em equipes de salvamento –, mas aos poucos vai perdendo a esperança e a consciência.

É por aí a aposta de Boyle e de Simon Beaufoy (indicado ao Oscar por "Ou Tudo, Ou Nada", vencedor por "Quem Quer Ser Um Milionário?"), responsáveis pelo roteiro. No início, o tempo parece importante. Ralston controla a passagem das horas no relógio, economiza água, começa a arquitetar sua fuga. Quando se espera que essa tensão vá dominar a narrativa, surge a solução dos autores para uma história que se passa o tempo inteiro no mesmo lugar. Ferido, debilitado e sem perspectivas de resgate, Ralston deixa seu testamento gravado em vídeo, um tipo de mea culpa. O monólogo dá a deixa para que o filme saia da rocha e ilustre as memórias do alpinista e seus erros no passado.

Não demora para ele começar a dialogar com uma antiga namorada (Clémence Poésy) e rever sua família. Aí o estilo exagerado do diretor passa a fazer mais sentido: a edição frenética e a fotografia resplandecente – feita em dupla por Enrique Chediak ("Besouro") e Anthony Dod Mantle ("Quem Quer Ser Um Milionário?") – combinam com essa atmosfera delirante. A evolução psicológica do personagem se torna o centro do filme, até chegar ao desfecho corajoso. As imagens fortes, aliás, teriam provocado desmaios na Austrália . Não é para tanto, o que também não quer dizer que sejam fáceis de se assistir.

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"127 Horas": flerte com a auto-ajuda
Virtualmente em todos os fotogramas de "127 Horas", James Franco interpretou Ralston melhor do que o próprio. Cativante, engraçado, comovente, domina o amplo espectro dramático que a trama exige (embora brilhe nas partes cômicas) e entrega o melhor trabalho de sua vida – um reconhecimento no Oscar seria justo, e inédito, por Franco ser um dos apresentadores. É ele quem humaniza a história e faz o espectador sofrer junto, em meio aos cacoetes de Boyle – precisava mostrar o interior do cantil, da câmera, do braço de Ralston?

Camuflado de filme de ação, "127 Horas" apresenta, na verdade, um ritual de passagem, o amadurecimento/renascimento do protagonista. Além de louvar as maravilhas da natureza, caminha perigosamente pelo terreno da auto-ajuda – não é por nada que hoje o autor do livro vive (cobrando bem) de dar palestras motivacionais. A vitória foi não descambar para esse lado e manter a pieguice sob controle, até porque o final é redentor, mas não tipicamente hollywoodiano. Daí a afirmar que se trata de um concorrente sério ao Oscar já é outra história.

Assista ao trailer de "127 Horas":

Conheça os bastidores de "127 Horas":

 Veja a entrevista com Simon Beaufoy, autor do roteiro:

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