06/07 -
18:13
-
Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
O golpe de Estado em Honduras trouxe-me à tona um artigo recente de Bernardo Kliksberg, no qual listava os efeitos do crash econômico em curso sobre a América Latina. Acrescento: eles são válidos para a América do Norte e para o Brasil, que, embora esteja experimentando algum progresso, do governo Fernando Henrique para cá, é país atrasado, exportador de matérias-primas, com um desenho institucional ineficaz.
As burguesias latino-americanas não empreenderam a ruptura econômica imperiosa para tornar seus respectivos países soberanos politicamente. O golpe de Honduras – que aflora alguns complicadores para o jogo político americano – é manifestação violenta da burguesia local contra Manuel Zelaya, que intentou dar uma guinada populista em seu governo. Os capitalistas latino-americanos não vivem sem o Estado, que lhes subsidia, e os políticos deles dependem, para suas campanhas eleitorais etc.
O economista, autor de "Primero la gente", ao lado do Nobel Amartya Sen, prevê um aumento de desemprego, o que já ocorre no Brasil, e, sobretudo, desemprego para os jovens, o que os tornará presas mais fáceis do tráfico de entorpecentes e do crime organizado. Ele prossegue dizendo que as mulheres vão ser ainda mais discriminadas no mercado de trabalho e que, ante o desemprego masculino, serão as principais responsáveis pela manutenção de suas casas. Além disso, ele assinala: “Também pode produzir-se um aumento das já muito altas taxas de violência doméstica, que oscilam de 10% a 38%, de acordo com cada um dos países”. Como quarto efeito, aponta a elevação do número de trabalhadores pobres, pela concorrência dos desempregados. Prevê mais cinco milhões de trabalhadores pobres ainda este ano.
Se o Estado brasileiro não consegue prover saúde, educação, justiça e segurança pública nem à altura dos impostos que arrecada, o que se pode dizer de Honduras – um país de sete milhões e meio de habitantes? Kliksberg, afirmando que a cobertura social dos países latino-americanos é mínima, existente para quatro em cada dez pessoas no máximo, antevê pioras na saúde pública e nas redes de proteção sociais. Para ele, essa vulnerabilidade potencializará “o aumento da pobreza em suas várias expressões”. O autor de "Primero la gente" fala que aumentará a evasão escolar, com danos agudos para o futuro dessas nações: “A América Latina tem 110 milhões de indivíduos que não terminaram o curso primário”. Conseqüência imediata: elevação das taxas de trabalho infantil.
Kliksberg informa que o continente terá, em 2009, mais seis milhões de pobres: “O círculo perverso que se produz é conhecido. Crianças pobres deverão trabalhar, abandonando a escola, e só terão acesso a empregos marginais, sem qualquer proteção social”. O que lhes resta então? Reproduzir a pobreza, segundo as corretas observações do economista. E acrescenta, o que serva à maravilha à situação brasileira: “ A região tem, apesar de seus avanços macroeconômicos, um enorme calcanhar de Aquiles social”.
Kliksberg esquece-se do efeito mais grave do despreparo institucional da América Latina para enfrentar o crash econômico: a devastação da natureza, pela ação da burguesia e dos novos pobres. Penso, por exemplo, no ecocídio colombiano: o cultivo da cocaína dizima o meio ambiente. A Colômbia está entre os dez países do mundo com mais biodiversidade ; possui 300 mil espécies de plantas e duas mil espécies de peixes de água doce, neste caso, 10% de toda a diversidade da terra.
O economista assinala que “a crise requer máxima atenção ao social”, o que não vai acontecer, destaco. E aduz que políticas econômicas ortodoxas podem ser o golpe de misericórdia à essa região. Nada indica que tal não ocorra: o golpe de Estado em Honduras abre um precedente sedutor para a Venezuela, a Bolívia, o Equador, a Nicarágua – o eixo bolivariano.
Reafirma, indiretamente, as políticas corruptas do peronismo “democrático” na Argentina. Instiga a direita paraguaia contra Fernando Lugo. O PRI retomará o poder no México. E assim por diante. Provavelmente, o golpe em Honduras impedirá uma reaproximação dos EUA com Cuba etc. Na Ilha, há hoje fila de espera de caixões para enterrar os seus mortos!
Kliskberg fala de políticas públicas de qualidade, a partir de reformas tributárias, para afastar a América Latina dos piores efeitos da crise. Devaneio! Haja vista o exemplo brasileiro. As prioridades, na área, são apenas eleitorais, de manutenção de certos personagens no poder (tanto faz qual P seja), para subsidiar uma burguesia fracassada, que vive do Estado – ao contrário dos EUA, onde o capitalismo de mercado existe.
Entenda:
Leia mais sobre: Honduras
Publicidade
Hillary Clinton tem conversa telefônica 'dura' com o líder interino de Honduras
Presidente de Honduras critica Obama por atuar 'timidamente' contra golpe
