05/12 - 12:59 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
Decidi mudar meu nome desde os atentados de novembro em Mumbai. Estava, há muito, enjoado de meu nome artístico: Régis Bonvicino. Os brasileiros não conseguem pronunciar corretamente Bonvicino. E o sobrenome italiano custou-me discriminações ao longo da vida. Cogitei Régis Antonio Rodrigues Bonvicino — extenso demais — e Régis Rodrigues, curto, com uma aliteração, mas inexpressivo, como eu.
Optei, então, por Gregor Samsa, idêntico ao da personagem de A metamorfose (1912), de Franz Kafka (1883-1924). Pensei antes em Policarpo Quaresma, mas não sou um nacionalista como a personagem de Triste fim de Policarpo Quaresma (1915), do extraordinário Lima Barreto (1881-1922).
A prosa brasileira contemporânea dos premiadíssimos Cristóvão Tezza, Milton Hatoum e Bernardo Carvalho parece-me — infelizmente — um danoninho e nela, conseqüentemente, não pude me inspirar. Queria algo expressivo, forte. Hatoum recebeu, em outubro, a Ordem do Mérito Cultural, prêmio do Ministério da Cultura. Como discrepo de governos, não quis me valer — por mais esta razão — das personagens do condecorado. Acostumei-me, de pronto, com Gregor Samsa — bastante adequado, pensei.
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| Lima Barreto |
No "The Guardian" li que Michael Tomasky afirma serem Barack Obama e Hillary Clinton os políticos mais conhecidos do mundo. Não tolero propaganda. Segui para o "El País", que destacava mais um atentado da ETA, com a recente morte do empresário Ignacio Uria, em Azpeitia. Os terroristas alvejam executivos para repudiar o sistema capitalista norte-americano, disseminado pelo mundo, como em Mumbai. Li ainda no "El País" que Nicolas Sarkozy — o mesmo que desde os tempos de ministro da Justiça vem perseguindo judicialmente o rapper negro Hamé, que lhe faz oposição por meio da música, e perdendo todas as ações contra o artista — perdeu, de novo, uma ação judicial que visava proibir a venda de um boneco de vodu com sua imagem, acompanhado de alfinetes e manual de instrução para cravá-los, de acordo com a feitiçaria negra. O playboy, vaidoso e vazio, é também antidemocrático.
Genocídio na África, guerra nuclear
Fui ao "The New York Times". Li a notícia da falência iminente da General Motors — que foi a maior empresa do mundo durante décadas —, da Ford e da Chrysler. Sinto pelos trabalhadores, mas odeio automóveis — que estão entre os maiores causadores do efeito estufa e do aquecimento global. Eles mudaram, para pior, o perfil das cidades e do campo, com autopistas que lembram os labirintos do contista argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), que tive a honra de conhecer nos anos 1980. Não ficaria triste se elas desaparecessem, apesar dos desempregados, que só nos Estados Unidos já chegam a 1,2 milhão. Passei ao "The Huffington Post", de Arianna Huffington — a grande inovadora do jornalismo contemporâneo. Já estava agitado com tanta notícia ruim. Li então uma entrevista da experiente repórter Christiane Amanpour, da CNN. Ela fez um documentário sobre o genocídio, que classifica, com pertinência, como a mais grave violação da lei. Revela que há um holocausto por ano na África. Discorre sobre Darfur, Ruanda e Congo. O genocídio é crime étnico, religioso ou racial. Critica o preconceito que a mídia tem em relação à África, que nunca é notícia de primeira página, ainda que “em Ruanda tenham sido mortas 800 mil pessoas”.
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| Franz Kafka |
Liguei a TV e ouvi três indianos comentarem os atentados de Mumbai. O primeiro dizia que eles não possuíam qualquer motivação religiosa, representavam apenas a violência pela violência, brutal, desumana, que visa somente ao caos e à intimidação, uma violência existencial. O segundo assegurava que os terroristas haviam sido treinados por Bin Laden e que seus alvos eram os executivos (hotéis), representantes do capitalismo financeiro americano, e Israel; além disso, falava da conivência do governo paquistanês, que permite a terroristas da Al-Qaeda e talibãs circular livremente pelo país.
Previu guerra nuclear entre Paquistão e Índia, caso o Paquistão não extradite os terroristas para a pátria de Ghandi. O terceiro, que lembrou que Bombaim, antigo nome de Mumbai, foi dado pelos portugueses (significa “boa baía”), afirmou que para os terroristas islâmicos o prazer só existe depois da morte e que Mumbai é, além de cidade do trabalho, uma cidade dos prazeres, com suas praias, sua liberdade, sua noite efervescente.
Imaginei-me aos pés do execrável Bin Laden, o rei do caos e da violência, presidente do globo terrestre! Xinguei o inepto Bush por não tê-lo prendido, apesar do dispêndio de bilhões de dólares em sete anos. Tomei um verdadeiro pisão das notícias. Depois de ingerir um calmantezinho e um sal de frutas, dormi. Não creio que tenha tido um sono agitado ou pesadelos. No entanto, acordei uma barata tetraplégica.

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