02/11 - 17:31 , atualizada às 17:47 02/11 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
O político maior é aquele que consegue despertar fantasias intensas nas pessoas. Exemplo: John Kennedy (1917-1963), que não precisou concluir seu governo – sua obra – para se tornar um mito. A fronteira entre realidade interior e exterior, como ensina Sigmund Freud (1856-1939), é tênue: a realidade do pensamento de cada um confunde-se com a externa, o desejo confunde-se com sua realização. A fantasia ou imaginação permitem, exatamente por meio do desejo, a liberação ilusória da realidade não satisfeita.
Barack Obama foi – nos últimos 40 anos – o único político que mobilizou, de modo radical, o imaginário de seu eleitorado, com sua figura genuína, elegante, e seu lema “Change, yes we can beleive in”. Soube captar o esvaziamento do modelo American way of life (que ocorria desde os anos 60) e sua utopia de mercado, que, onipotente, auto-regulava-se, prescindindo do Estado e de suas políticas sociais.
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The State Hospital, por Kienholz |
Ronald Reagan (1911-2004), embora bem sucedido, foi reação tardia ao declínio dessa utopia, ao martelar que o “Estado é o problema e não a solução”. O pensador francês Roland Barthes (1915-1980) afirmava que a utopia é o campo do desejo diante da Política, que é a esfera da necessidade. Bush tentou fundir desejo e necessidade mas esta útlima o censurou, com veemência, por sua irresponsabilidade e loucura de duas guerras gratuitas, revogação do Estado de Direito, a supressão das liberdades civis, o esmagamento dos pobres e o colapso não só econômico mas moral dos EUA, hoje um Estador-torturador (Guantánamo).
As fantasias negativas provocadas por Barack Obama são a biópsia de seu país. Vejamos. O senador republicano Lindsey Graham da Carolina do Sul o acusou de gastar mais tempo escrevendo livros e fazendo campanha do que trabalhando no Senado. Anti-intelectualismo, que moveu também Bush durante o seu mandato. Campanhas políticas são, ao cabo, nada mais do que reflexões sobre países num dado momento. John McCain, que não despertou qualquer fantasia, o acusou de antipatriota.
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| Non-War Memorial, por Kienholz |
Self made man
Foi chamado de terrorista, quando os EUA invadiram o Iraque sem qualquer razão e se tornaram o maior exportador de medo do planeta! A democracia de boca da pistola, como crava Joseph Nye. Foi acusado de ser amigo dos palestinos, porque manteve alguns contactos acadêmicos com o scholar Rashid Khalid – um novaiorquino, graduado por Yale! Foi chamado de negro pela mídia com a tópica do “voto envergonhado”. É o Mr. Anti-American! Foi chamado de "socialista” (como se isso fosse um palavrão), porque pretende reduzir a carga tributária dos pobres e da classe média.
Dezenas de pessoas ateiam fogo ou se matam a bala nos EUA quando os bancos retomam suas casa hipotecadas. Foi chamado de inexperiente, despreparado, quando propõe novo modelo de governo! Chamaram-no de “galinha de merda”! De pedófilo, por “querer educar sexualmente as crianças do jardim da infância”! De “maconheiro”! Lady Lynn Forester De Rothschild – ignorando a Era Bush – o acusou de querer levar a economia norte-americana ao fundo do poço, com o “Welfare State”. Lady Lynn é adepta do Workfare State (Estado do trabalho), do self made man. Obama é o exemplo de workfare e do self made man!
Prefiro guardar comigo as fantasias positivas, que eletrizaram o mundo! E ficar com o ‘poeta” sensível, como a americana Toni Morrison, ganhadora do Nobel de 1993, o designou, qualitativamente. Morrison definiu com acerto a retórica de McCain como “sucata” e se declarou cansada das ofensas à língua de Shakespeare praticadas pela “boca incoerente de Palin” Não sei se um novo momento histórico se inicia. Os EUA violentaram, cansaram demais o mundo nos últimos 50 anos. Deixo aos leitores minha fantasia positiva: que o Estado de Direito seja restaurado pelo Presidente Barack Obama e que ele substitua a hegemonia bélica, negativa, do país, por uma benigna, de educação multicultural, de enfrentamento das desigualdades, do aquecimento global, etc.

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