03/07 - 17:55 - Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel
Nahum Sirotsky, em Israel - A libertação da ex-candidata a presidente da Colômbia me levou de volta ao dia em que Bogotá, a capital, foi incendiada. O Bogotaço como é lembrado.
E lá estávamos eu com cerca de 20 anos representando “O Globo” e tendo como enviados de outros jornais Joel Silveira, Antonio Callado, Barreto Leite, gigantes do jornalismo jamais igualados.
Acompanhávamos delegação do Brasil a Conferência Interamericana sob chefia de João Neves da Fontoura, ministro,que incluía Guimarães Rosa, Sergio Correa da Costa, outros cujos nomes me escapa. Foi há muito tempo, mas tinham todos a categoria da Casa do Rio Branco, diplomatas inesquecíveis pela cultura e preparo profissional.Tudo indicava que seria mais um encontro chatérrimo dos tempos da Guerra Fria, quando os votos dos sul-americanos eram essenciais à política externa americana.
Joel tinha faro e nada perdia. Descobriu que um bom assunto seriam as eleições presidenciais colombianas. Jorge Eliecer Gaytan, apelidado de el Índio por sua cor, era o candidato amado do povão. Logo apreendemos que na Colômbia de então os brancos, consideravam-se a elite descendente direto dos conquistadores espanhóis. O povão era na maioria de fisionomia indígena.
A conversa com Gaytan foi no seu escritório. “mañana continuaremos”, prometeu ele. Dois partidos disputavam o poder: o Conservador e o Liberal. Gaytan, do Liberal, com programa populista qualificado de muito esquerda pelos conservadores, os Godos como eram chamados, e os americanos. O novo encontro seria para a tarde do dia seguinte. Não aconteceu.
Tínhamos um almoço na residência do embaixador do Brasil que nos iria apresentar a jornalistas conservadores e liberais. O almoço começou com as melhores entradas e vinhos, o embaixador era da velha guarda. Chegou um mordomo e soprou algo no ouvido dele que pediu licença e se ausentou por poucos minutos. “Não foi nada, não. É que assassinaram o tal do Gaytan”. Os colegas imediatamente se levantaram, os dos jornais liberais logo insultaram as mães dos conservadores que numa primeira reação pediram asilo ao embaixador que insistia em continuar o almoço. Estava tudo normal, dizia.
Não havia condução de espécie alguma. O centro velho de Bogotá estava em chamas. O povo culpava os conservadores pelo crime. Havia lutas sangrentas por todos os cantos. Os camponeses usavam seus foices para matar, havia aqueles armados com armas de fogo. Os soldados tentavam impor a ordem.
Fomos ao encontro da delegação brasileira no Palácio Bolívar, o Palácio do Congresso, perto da residência do presidente. Passamos nas proximidades do edifício de El Siclo, o jornal conservador em chamas. Apanhei um sino que estivera na sua porta de entrada como lembrança. No meio de uma confusão a coisa é ter sangue frio, autocontrole, ou se é logo vitima. Mas não é fácil dominar o medo. Nos separamos. Cada um correu para seu hotel para escrever.
O meu ficara inalcançável, em chamas, cercado de atiradores. Callado, com a vivencia de Londres na 2º guerra, não se abalava; Joel, veterano da guerra da FEB, parecia em casa no meio daqueles tiros todos. E me sugeriu cortar caminho pegando uma grande avenida. Fui com ele. Meu chapéu caiu ao chão. Ao levantá-lo verifiquei que fora atravessado de lado a lado por um tiro. Por instantes ficamos ambos imobilizados pela reação nervosa. João Neves não estava no gabinete. Gaúcho de muitas revoluções nada temia. Fora para as ruas ver a luta ainda vestido de casaca e calça listada de uma recepção. E era meio surdo.
Não há espaço para contar muito mais do que foi a minha primeira experiência de reportagem com perigo mortal. Mas vale lembrar que, cercados no Palácio do Congresso, decidimos sair na escuridão da noite com risco de vida. O Palácio estava sob forte ataque. Badalando o sino, uma bandeira brasileira e gritando: ”atencion, no atiren, somos brasileiros”.
Não atiraram, mas, dias depois, em local improvisado para continuar a conferencia, um cara evidentemente míope e baixo se aproximou de nós e falou: “ Tengo un chiste a contar. Yo tênia ordenes de matar a todos que salissen del Palácio, quando vi la bandera me parecio ser de los comunistas y no atire”!. E vocês eram brasileiros. Caiu na gargalhada e nós num porre homérico.
Em Bogotá Fidel Castro, líder estudantil, foi um dos que atiraram contra os conservadores. Garcia Marques sempre fala da violência na historia da Colômbia. Leiam “Vivir para contarla”, suas memórias.
Foi no Bogotaço que começaram a amadurecer as condições que deram na guerrilha Farc.

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