02/06 - 03:08 - Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel
Do Nahum Sirotsky –Israel comemora o Dia de Jerusalém, em que a cidade murada foi reconquistada em 1967.
A Jerusalém antiga tem uma personalidade singular. Nem os maiores poetas conseguem captar a sua atmosfera. Só senti-la. E eu lá entrei quando ainda não estava totalmente quieta.
Na época ocupava função de adido a embaixada do Brasil, do embaixador Aluízio Bittencourt, velho amigo. Tinha um conhecido de nome Paul, um baixinho. Ele ligou de manhã cedo e me convidou para um passeio interessante, com promessa de absoluta discrição.
Aluízio autorizou minha ausência. Era tempo de guerra. Paul veio num jipe e tomamos a única estrada existente para Jerusalém moderna. Onde estamos indo? Espere, respondeu.. Nos desviamos do centro da Jerusalém de cem anos e chegamos a Porta do Leão da Jerusalém de milhares de anos. Lá estavam soldados da tropa de paraquedista com armas ligeiras.
Sabia-se da ordem de invasão da cidade com armas leves para não colocar em perigo os lugares santos. Fiquei frio com o tiroteio. Os soldados da Legião Beduina Jordania, tropa arabe de elite, resistiam.
"Estamos perto do Muro das Lamentações. É onde vamos", disse Paul. Entramos, correndo sempre colados ao que existia no caminho. E Paul dizendo que era um descrente de partido socialista da esquerda. "A gente não acredita nestas bobagens de pedras sagradas nem em rezar!".
Num certo momento da travessia e música do assovio das balas, Paul diz que temos de voltar. Está sem o livro de rezas e solileu. "É tudo bobagem, mas é a primeira vez em dois mil anos que os judeus voltam a este local. Rezarei". "Você é louco” exclamei. E outra vez retomamos o caminho dos combates...
O tal de coração batia de explodir, não há alternativa. Ou se enfrenta o medo ou ele imobiliza. E não era minha primeira guerra urbana.
Chegamos ao canto da Muralha cobertos de lixo, rua apertada; mas já se trabalhava para se ampliar o espaço e retirar o antigo e mal-cheiroso lixo. E logo vi soldados, garotada, chorando descontroladamente. Paulo e eu nos juntamos a eles.
Logo começaram a chegar oficiais e políticos. Choravam todos. Os judeus voltavam a dominar o seu lugar mais sagrado. Dois mil anos depois de expulsos pelos romanos que tocaram incendiaram a cidade para punir rebelião dos judeus, seus súditos.
Há anos guardo o segredo até de minha família... Tem mais daqueles dias que um dia relembrarei.

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