10/05 - 19:22 - Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel
O Líbano é um pequeno país e um grande problema. E o que lá acontece é tão importante que os ministros do Exterior dos países árabes, a Liga Árabe, deverão se reunir para decidirem uma orientação.
O encontro foi convocado antes da óbvia derrota do atual governo face ao Hezbollah, poder militar autônomo, poder político que se expande e preocupa o mundo árabe, Israel e os poderes ocidentais. Não sei a estas horas - meia-noite no Oriente Médio e 18h no Brasil - o que se sabe aí, em casa, sobre os acontecimentos.
As Forças Armadas praticamente se negaram a obedecer o poder político que foi forçado a chegar a uma solução de submissão. As conseqüências são imprevisíveis, devido à complexidade do Estado libanês, no qual uma grande maioria tem parentes no Brasil que devem estar neles pensando. O recuo do governo, aparentemente, evitou nova guerra civil. A ultima, do século passado, durou mais de 20 anos.
Reuters

Hezbollah decide interromper presença armada
Tentarei simplificar. A guerra civil terminou em um acordo pelo qual todos os poderes devem ser distribuídos e compartilhados por representações de todas as seitas e etnias. O presidente tem de ser cristão maronita, o primeiro-ministro um muçulmano da seita xiita e etc. O Líbano é o país árabe com um sistema democrático sui generis.
Realiza eleições dividindo antecipadamente o que cabe a que partido ou organização. O presidente é eleito pelo Parlamento. O cargo está sem ninguém porque os deputados não conseguem concordar em um nome. Partidos ou grupos religiosos têm suas milícias. Nenhum grupo confia inteiramente nos outros.
O país tem menos de 4 milhões de habitantes e 10 mil quilômetros quadrados. O Hezbollah (Partido de Alá, Deus) tem o controle de fato da região sul, fronteira norte de Israel. É classificado de terrorista mas tem uma liderança extremamente inteligente e competente, que visa ao poder político. São xiitas, a mesma seita muçulmana do atual chefe de governo, Fouad Siniora. Siniora deseja um Líbano ocidentalizado. O Hezbollah quer um Líbano "islamizado" e tem o apoio do Irã persa e xiita, que pretende ser o país líder da região. Os dois grupos xiitas são incompatíveis.
Os maronitas (católicos) estão divididos entre os que simpatizam com o Ocidente e querem um Líbano independente, o que não é, e a Síria, que jamais aceitou um Líbano independente. Entenderam? Só mesmo os libaneses, cujo país chegou a ser o maior centro financeiro do mundo árabe, posição talvez definitivamente perdida para Dubai, de 200 mil habitantes e liderança atualizada com a coragem de sua visão do que deve ser.
A parada entre o governo e o Hezbollah foi um desentendimento sobre expansão de meios de comunicação, considerada ilegal pelo primeiro-ministro. E que general deve controlar o aeroporto de Beirute. O que estava no comando tem as simpatias do Hezbollah.
Se o Hezbollah chegar ao poder, será problema de segurança para Israel, ameaça à segurança da maioria dos países árabes, todos da seita sunita, fortalecimento do Irã xiita, enfraquecimento maior da influência ocidental nos países produtores de petróleo, para simplificar. E uma tal coisa só pode acabar muito mal.
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