08/05 - 10:22 , atualizada às 12:28 08/05 - Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel
TEL AVIV - Trabalhava como "boy" numa revista quando chegou um indivíduo que se expressava com dificuldade em francês. Tinha ligeira barba, cicatriz no rosto, pediu para falar com o editor. E então mostrou fotos do que chamou de campos de concentração. Explicou que vinha acordar o mundo para a matança e a escravização dos judeus da Europa por Adolf Hitler. Foi ouvido. Servi um cafézinho. E ele se foi.
Lembro ter sido nos dias do pacto entre a Alemanha, de Hitler, e a União Soviética, de Stálin. "É propaganda anticomunista", a redação decidiu. Não era, como se descobriria mais tarde, durante a invasão da Rússia pelos alemães. A divulgação das matanças de judeus na Europa acabou autorizada pela censura brasileira (Departamento de Imprensa e Propaganda, DIP) depois que entramos na guerra, ao lado das democracias e da Rússia comunista.
Anos mais tarde, repórter de "O Globo" que falava inglês e menos de 20 anos, fui designado para cobrir o nascimento das Nações Unidas, em Nova York. O navio-cargueiro demorou mais de 50 dias navegando. Cheguei a tempo da Segunda Assembléia Geral, com a ONU funcionando nos prédios de uma antiga fábrica em Lake Success, Long Island, Nova York.
O meu credenciamento foi inicialmente negado pela encarregada, uma americana, sob a alegação de que o português não era das línguas oficiais - inglês, francês, russo, espanhol e chinês. "Não temos telegrafista que saiba sua língua!" Tive de fazer escândalo até aparecer um funcionário graduado, que explicou que a telegrafista só precisava saber o alfabeto.
E fui o primeiro jornalista brasileiro a ser credenciado pelas Nações Unidas. Aprendi que ignorância pode ameaçar a paz entre as nações e quem não chora não mama. Conheci os grandes homens da época. E Oswaldo Aranha, o diplomata brasileiro eleito para presidir a reunião que decidiria se a Palestina, de mandato inglês, seria dividida entre árabes e judeus.
Os votos favorávei foram 33, a maioria absoluta de países latino-americanos. À habilidade diplomática de Aranha deve-se o resultado. Ele, pessoalmente, era favorável a que os judeus tivessem um espaço para o seu lar nacional, como senti.
Os árabes recusaram, provavelmente convencidos de que poderiam ganhar em batalhas militares. Recordo Ben Gurion, o líder dos judeus palestinos, dizendo que um pequeno pedaço de terra próprio era melhor do que sonhar. E que se os judeus tivessem tido este pedaço, teria sido possível salvar milhões dos que foram massacrados na Europa.
Choques entre forças árabes e grupos judeus logo se agravaram na Palestina. Era 1947. Voltei ao Brasil. E tive a esperança de ir ver a briga. Era 1948. A guerra da Independência. Mas "O Globo" me designou para investigar o desaparecimento de um jovem militar brasileiro na mata virgem do alto da Amazônia, o Guaporé. Era reportagem estimada para uma semana. No Rio de Janeiro, ninguém conhecia o suficiente do Brasil. Foram cerca de três meses na floresta.
Não fui à primeira guerra de Israel. Mas, da vivência nos Estados Unidos, trouxera informação sobre a oposição do secretário de Estado americano George Marshall à proclamação do Estado judeu, convencido de que seria destruído e os seus habitantes seriam massacrados.
O presidente Truman, que tivera um sócio judeu numa loja de tecidos que falira, decidiu ele próprio reconhecer o novo Estado. Há uma lenda de que atendeu a seu amigo. Mas, ao Estado judeu logo se impôs bloqueio no abastecimento de armas. Sobreviveu com armas compradas de contrabandistas, parte das quais capturadas ou abandonadas pelas tropas alemãs derrotadas na guerra.
E só fui a Israel pela primeira vez em 1964. Mas a atriz Beyla Genauer, minha mulher, ia quase que anualmente para visitar seus pais.
Em 1956, eu tinha o mais alto salário da imprensa, cem mil cruzeiros, e a direção do Diário da Noite da Cadeia Associada. Numa madrugada, ao chegar à redação, me sugeriram a manchete: "Tel Aviv em Chamas". O Cairo anunciava o bombardeio aéreo de Israel na guerra que se chamaria de guerra do Sinai. Mulher e filho lá se encontravam. Decidi ir até eles por todos os meios. Estavam cortadas as linhas telefônicas. As emissoras de rádio e agências de notícias só mandavam informações do Cairo. Assis Chateaubriand me negou licença. Disse que iria. Aceitou minha demissão.
Enquanto isto, jornalista com título, pedi ajuda da embaixada americana, que estava reunindo seus cidadãos em Israel para retirá-los do país. Descobriram Beyla e o filho. Ela se negou a abandonar a família. Quando consegui transporte, a guerra havia acabado, com os israelenses tendo conquistado e ocupado uma das margens do Canal de Suez. E eu, sem emprego.
Na guerra de 1967, tinha as funções de adido à embaixada do Brasil em Tel Aviv e boas amizades entre militares israelenses. Do Brasil, chegaram os jornalistas Alberto Dines, pelo "Jornal do Brasil", e Flévio Alcarraz Gomes, do "Correio do Povo", de Porto Alegre, e logo foram à frente de batalhas. Fiquei com inveja e dei um jeito de ir sem autorização, ajudado por amigos.
O meu momento mais emocionante, porém, foi entrar em Jerusalém, ainda cena de combate, por decisão de um grupo de diplomatas cristãos, preocupados com a segurança dos lugares sagrados. Fui numa manhã e voltei a noitinha. Nada disse à família. Tudo bem com os lugares cristãos, excetuada a torre de uma igreja da qual os jordanianos atiravam e tiveram de ser eliminados, pude relatar.
No dia seguinte, Jerusalém murada, fechada aos judeus desde 1948, tinha seu acesso liberado. Boa parte do povo israelense correu e chorava. A cidade, que tinha sido perdida aos romanos há uns dois mil anos, voltava a ser capital de Israel.
As guerras posteriores, de atrito, 1973, rebelião (Intifada) palestina, de suicidas, acompanhei como repórter do "Jornal do Brasil" e "Estadão" (com o pseudônimo Nelson Santos). Não derrotaram Israel, que se fortalece.
Tel Aviv, que numa primeira visita parecia subúrbio do Rio de Janeiro, de modesta, transformou-se em importante centro industrial e cultural. E se tentam soluções políticas sem sucesso. Os judeus religiosos dizem que a paz virá com a chegada do Messias, que esperam há mais de três mil anos. Do jeito que vai, lógico, não farei a reportagem.

Israel comemora nesta quinta-feira os 60 anos de sua criação / AFP
* Nahum Sirotksy é o correspondente do iG em Israel e vive em Tel Aviv

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