14/06 - 20:00 - Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel
Nahum Sirotsky - Ainda é muito cedo para conclusões, porém, o Movimento Islâmico de Resistência, Hamas, conquistou a Faixa de Gaza. E até pode ter assumido problema que não terá como resolver sozinho. Desespero é o pior conselheiro dos governos.
A faixa de Gaza e o Braço Ocidental do Jordão, a Cisjordânia, são legalmente territórios ocupados por Israel. É a área sob a administração da Autoridade Palestina que se imaginou ser o meio para negociação e criação do estado palestino na Declaração de Washington, de 1993. A data vem sendo adiada.
Em 2003 o Quarteto – Estados Unidos, Rússia, União Européia e Nações Unidas- apresentou o roteiro para sucessivos acordo de mútuas concessões que deveria concluir na proclamação do estado independente democrático em 2005 . Desentendimentos deram em novos adiamentos. Morreu Yasser Arafat, em 2004. Mahmoud Abbas, veterano líder do Fatah criado pelo líder morto, é eleito presidente em janeiro de 2005. No mesmo ano Israel retirou seus colonos e tropas da Faixa de Gaza. Mas em 2006 o Hamas ganha as eleições para o Conselho Legislativo e o direito a formar o governo. O sistema é parlamentar. A comunidade internacional, ONU, não reconhece o governo do Hamas. Os islâmicos não aceitam reconhecer o direito de Israel a existir, renunciar ao uso de violência e referendar os acordos já concluídos. O gabinete Hamas fica sob sanções econômicas e políticas internacionais. Formou-se governo de União Nacional, mas não acabam as diferenças. Como continuar negociando a paz sem existir um governo de todos os palestinos? A chamada solução de Dois Estados, única aceitável por Israel?
O Hamas palestino tem programa prevendo a destruição do estado judeu. Seria factível por acordo de paz que permitisse o retorno de todos os refugiados palestinos a Israel, recusado. A conseqüência seria maioria e acabariam com o estado judeu no voto.
A ação do Hamas em Gaza é considerada ilegal por definição de Abbas, que decretou a dissolução do governo de União Nacional e impôs estado de emergência que, por lei, tem de ser aprovado pelo Conselho Legislativo onde o Hamas tem maioria absoluta. Sami Zuhn, porta–voz do Hamas, já qualificou de ilegal a decisão de Abbas.
A Faixa de Gaza tem menos de 400 quilômetros quadrados e fronteiras com o Egito e Israel. A Cisjordânia, separada por uma faixa israelense, onde vive Abbas, tem 5 mil e 600 quilômetros. Na área de Gaza apertam-se cerca de um milhão e 500 mil palestinos que dependem em sua maioria de ajuda das Nações Unidas para se alimentarem. Na Cisjordânia vivem 2 milhões e 550 mil palestinos com vizinhança de mais de 300 mil colonos judeus.
Israel já anunciou que não vai mandar tropas para Gaza. Não quer tocar fogo no pavio. Movimentam-se os bastidores da diplomacia internacional e árabe em busca de solução. A pequena Faixa de Gaza ocupada pelo Hamas tem o potencial para uma grande explosão no Oriente Médio. Há analistas que temem um contagio internacional.
O Hamas é da seita sunita, da maioria dos árabes e a tomada de Gaza inviabiliza a solução proposta pelo Quarteto com reunião marcada para antes do fim do mês no Cairo. E isso preocupa os 22 paises da Liga Árabe, todos com governos autoritários e impopulares, pelo receio não abertamente confessado do efeito-exemplo. Hamas é modelo de sistema de aplicação da justiça prevista na lei da fé. Num contexto de insatisfação da massa árabe com a injustiça nas sociedades em que sofrem, e antipatia aos israelenses, bem, o máximo de cautela é pouco.
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