01/11 -
19:56
, atualizada às 10:10 02/11 -
Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Os grandes vencedores das eleições presidenciais no Afeganistão são os rebeldes do Taleban e seus aliados da rede Al Qaeda, gente que abomina a própria ideia de eleição e democracia.
O novo capítulo da farsa politica no Afeganistão é a decisão de um dos dois candidatos, Abdullah Abdullah, de não concorrer no segundo turno no próximo sábado, alegando que o uso de fraude será ainda mais amplo do que no primeiro turno de agosto. Em princípio serão mais cinco anos de Hamid Karzai no poder. Ele ganharia mesmo sem fraude, embora perdendo para a abstenção. Para consagrar a farsa, o segundo turno foi cancelado e Karzai declarado presidente para um segundo mandato.
Em um universo de opções ruins, os americanos e seus aliados europeus estão resignados a Karzai como o menor dos males, mas ele não tem credibilidade. Foi reprovado no teste de se poderia ser o garoto-propaganda da modernização do regime implantado com a derrubada do Taleban em 2001 pelas forças invasoras lideradas pelos EUA.
A comunidade internacional inventou esta fantasia de normalidade a toque de caixa com as eleições e vai pagar caro, assim como a população afegã. O próprio Karzai foi pressionado a realizar o segundo turno (queria cantar vitória já no primeiro) e no domingo a secretária de Estado, Hillary Clinton, exagerou no protocolo diplomático dizendo que a desistência de Abdullah Abdullah não vai minar a legitimidade do novo governo. Bobagem.
Karzai não tem legitimidade, o Taleban ressurgiu e a guerra se intensificou. Já a comunidade internacional não tem uma clara missão no País. O maior ônus internacional está com o governo Obama. Desde a sua campanha eleitoral no ano passado, o presidente americano apregoava que o Afeganistão era uma guerra de necessidade, ao contrário do Iraque. Obama agora é forçado a tolher as ambições diante das adversidades. Pode apenas fingir que tem um interlocutor confiável em Cabul - o governo Karzai é altamente incompetente, frágil e corrupto - e existem divisões em Washington sobre como proceder no Afeganistão.
Num cenário decisório volátil, as últimas informações são que Obama deverá decidir em breve sobre o envio de mais tropas, mas não nos termos (pelo menos 40 mil soldados) solicitados pelo general Stanley McCrystal, o comandante no Afeganistão. A missão mais limitada será proteger os maiores centros populacionais dos ataques do Taleban. No interior, as forças americanas e da Otan deverão recorrer a táticas de contraterrorismo, ao estilo de guerrilha.
Assessores da Casa Branca no domingo já não falavam na busca de estabilidade política no Afeganistão ou na construção de um país moderno, mas basicamente de impedir que a rede Al Qaeda restabeleça bases no Afeganistão, como antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, e conter o avanço do Taleban. Para uma crise crescente (não podemos esquecer o Paquistão ali do lado), planos descrescentes.
Na véspera do primeiro aniversário de sua própria eleição triunfal, o melancólico desfecho eleitoral no Afeganistão mostra que não, Obama não pode.
Leia mais sobre: Afeganistão
Publicidade