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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Toda manhã, em uma operação fulminante no meu seguro e confortável subúrbio novaiorquino, eu entro na cozinha de casa e ligo a cafeteira e a televisão com o noticiário na BBC de Londres. Nas últimas semanas, o ritual está macabro. É raro o dia em que não tomo café vendo imagens de atentados no AfPak, nome familiar das remotas bandas do Afeganistão e Paquistão.
Na quarta-feira, com a solenidade de praxe, um repórter da BBC lá no AfPak, observou que a escalada de violência nos dois países resulta da crescente interferência estrangeira, em particular dos EUA. O Talebã está reagindo com sua barbaridade rotineira, mas muita gente no Paquistão e Afeganistão canaliza sua fúria contra os americanos e não contra os terroristas. Vá lá que, em nome da barbárie, o Taleban não lute contra a civilização ocidental, mas contra a civilização.
Nick, um conhecido, meu relativamente conservador, mas que votou em Barack Obama nas eleições do ano passado, não assiste ao noticiário da BBC, mas concorda com o repórter. Vai mais longe e palpita que Obama não deve mandar mais tropas para o Afeganistão ou dar mais dinheiro para "aquela gente" do Paquistão, sem falar de manter na folha de pagamentos da CIA gente como o irmão do presidente Karzai, do Afeganistão, acusado de ser traficante de drogas. Nick arremata que "eles estão se matando há mil anos, vamos (os americanos) cair fora da fogueira".
Em linguagem mais geopolitica, o influente colunista Thomas Friedman escreve no "New York Times" que os EUA não têm parceiros no Afeganistão, entre os aliados da Otan, apoio doméstico, recursos ou interesses nacionais que justifiquem o aprofundamento do envolvimento naquele país. E teve muito impacto a renúncia de um respeitado diplomata americano no Afeganistão, Matthew Hoh, por considerar sem sentido o engajamento do seu país no que ele considera uma guerra civil. Hoh também argumenta que o envolvimento dos EUA alimenta os insurgentes.
Este cenário de carnificina e dúvidas entre especialistas com credibilidade e "populares", como o meu conhecido Nick, tornam ainda mais cruciais os dilemas do presidente Obama. Sua eleição há um ano lhe conferiu um mandato para acelerar a retirada americana do Iraque, mas também o investimento no Afeganistão. Com comodismo cínico, os republicanos liderados pelo ex-vice-presidente Dick Cheney dizem que Obama vacila para tomar uma decisão em parte porque a opinião pública vacila.
Eu confesso que vacilo entre o argumento de que a comunidade internacional tem uma obrigação moral para resgatar povos de um cenário da barbárie (também extirpando a ameaça terrorista) e o reconhecimento de que boas intenções nem sempre são efetivas.
Em meio ao ritual macabro no AfPak e os dilemas sobre o que fazer (ou não) é até terapêutico ver o que a BBC mostra depois das cenas de um novo atentado no Paquistão ou Afeganistão. Na quarta-feira, lá estava Paris Hilton, que apareceu na exibição em Los Angeles do concerto-documentário sobre Michael Jackson. A moça, que é famosa porque é famosa, disse que estava emocionada, pois conhecia Michael Jackson desde que ela nascera. Enquanto isto no AfPak...
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