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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Jornalista tem o vício de falar demais de jornalismo. Cá estou na terceira coluna consecutiva sobre a guerra Obama x Fox. Sigo na luta inglória de defender a abominável emissora conservadora contra as investidas de um presidente que para os padrões da classe política até que é decente. Não vou repetir (demais) o argumento que não acredito que seja o papel do Poder Executivo se incomodar demais com um canal de televisão, que tem uma vanguarda de comentaristas retrógados maldizendo o governo com acusações muitas vezes alopradas.
Há pessoas que lêem esta coluna e associam a rede Fox a um tal de PIG (Partido da Imprensa Golpista) no Brasil, que como trocadilho realmente me parece uma porcaria. No contexto norte-americano, a Fox integraria uma conspiração reacionária empenhada em derrubar Obama. Por favor, nada de inflar tanto a bola da Fox ou da própria imprensa. Evidentemente que a Fox não é irrelevante, mas se fosse onipotente John McCain e Sarah Palin estariam na Casa Branca e não Barack Obama e Joe Biden.
Alguns números sobre a Fox. Em 2008, metade dos espectadores deste canal da TV por assinatura devotado 24 horas por dia a notícias tinham mais de 63 anos. Este é o mais velho segmento demográfico no negócio de TV por assinatura. E a maioria daqueles que assistem aos programas mais incendiários dedicados a destroçar Obama, os liberais e outros "antiamericanos" são homens brancos. Nesta era de estímulos fiscais, podemos dizer que a Fox é uma espécie de viagra para um grupo sociológico conhecido como "angry white men". No trocadilho grosseiro, se a ereção antiObama de um homem branco furioso, que assiste ao noticiário da Fox, durar mais de quatro horas é melhor consultar um médico.
Já a Fox se sente mais "viagrorosa" do que nunca. O governo Obama é um orgasmo permanente para a emissora e a decretação de guerra pela Casa Branca é altamente estimulante para sua causa. Mas, de novo, não existem motivos para inflar demais sua bola. A imprensa em geral perde potência. Vivemos numa era de paradoxos: existe muita mais notícia para um mercado cada vez mais fragmentado. Para agravar este quadro, a imprensa tem cada vez menos credibilidade. A Fox é flagrantemente parcial, assim como sua antítese liberal, o canal MSNBC.
Nenhuma surpresa no resultado de uma recente pesquisa do instituto Pew: apenas 29% dos americanos acreditam na precisão das organizações jornalísticas, o número mais baixo em 20 anos. E, novamente, nenhuma surpresa, que entre consumidores de noticiário na TV por assinaura, os republicanos dêem notas positivas para a Fox e os democratas para a MSNBC. A programação jornalística é altamente opinativa em ambos os canais para preservar a respectiva base de espectadores. Não é à toa que atualmente, no dia-a-dia sem notícias espetaculares, a CNN, pioneira no formato 24 horas, perde para as duas rivais.
No cenário de Louis Menand, da revista "New Yorker", os comentaristas da Fox e da MSNBC são como crianças no tanque de areia do parquinho. A brincadeira perde um pouco a graça quando o presidente Obama (que sempre posou de jovem cool e maduro) leva muito a sério as diatribes da Fox e coloca areia no ventilador. Sua guerra aberta pode ser um viagra adicional para o canal conservador.
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