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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK - Pelo terceiro dia consecutivo, eu falo de Japão neste espaço. A atenção é devida diante da obsessão com a China superemergente e os EUO (Estados Unidos de Obama). Mas o Japão ainda está lá no pódio, meio letárgico na economia e mais ansioso agora que se configura um quadro de mudanças políticas com as eleições de agosto. Mudanças? Eu chego lá com meu ceticismo.
A China promete ser um gigante econômico, mas na política continua sendo anão com sua ditadura. Os EUA mostraram uma capacidade de reinvenção com a eleição de Barack Obama, mas o culto à personalidade incomoda. Já o Japão é esta anomalia política. Tem todas as instituições democráticas - eleições livres, o primado da lei e imprensa independente-, mas não sabe o que é a transferência do poder de um partido para o outro através de uma vigorosa campanha eleitoral, num cenário agravado por corrupção endêmica da classe política.
O Partido Liberal Democrático (PLD) está aferrado ao poder há mais de meio século (com exceção de um breve período de 11 meses em 1993/94). Existem furiosas disputas entre facções dentro de um partido, mas o país carece de uma cultura de competição entre os partidos políticos. Portanto, à primeira vista é uma ótima notícia a perspectiva de derrota do PLD em agosto para sacudir o sistema.
Afinal, este sistema político está atrofiado, com o domínio de um partido e ênfase no compromisso. Tudo isto contribuiu para uma letargia nacional, inclusive na economia. O problema é quem está na competição. O Partido Democrático do Japão (PDJ) está vagamente à esquerda do conservador e fisiológico PLD. Mas na tradição política japonesa, é um apanhado de facções. A rigor, o partido é um casamento de conveniência entre grupos díspares unidos na sua insatisfaçao em relação ao partido governista.
Basta ver que tanto o atual líder Yukio Hatoyama como o antecessor Ichiro Ozawa são desertores do PLD. Ozawa foi espirrado num escândalo de financiamento de campanha eleitoral, mas continua influente nos bastidores. O PDJ é composto de pelo menos oito facções, que vão da esquerda a um conservadorismo tão extremado que faz o PLD parecer de centro. De sua parte, o PLD tem pelo menos cinco importantes facções. A política japonesa é um ilustríssima versão oriental do PMDB.
O PDJ é novo, tem apenas 11 anos e sua ascensão por ora é acidental, muito mais fruto do desgaste e descrédito do PLD. O cenário não é muito promissor, até circular. É praticamente certo que Hatoyama seja escolhido primeiro-ministro quando a coalizão governista liderada pelo PLD perder as eleiçõede 30 de agosto. Mas tudo ficará em familia. O avô de Hatoyama foi o primeiro dirigente do PLD no poder.
Nada inusitado. No Japão, a corrupção eleitoral é endêmica e a política é dinástica. Tanto o atual primeiro-ministro Taro Aso como seus três predecessores são filhos ou netos de ex-dirigentes. O bisavô de Hatoyama foi presidente do Parlamento, seu pai ocupou o cargo de ministro das Relações Exteriores e o irmão mais novo é ministro da Justiça do atual governo.
A família Sarney não escandaliza os políticos japoneses, da situação ou da oposição.
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