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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- O Japão que vive uma longa agonia econômica agora chega a uma encruzilhada política com a crise de legitimidade do governista Partido Liberal Democrático, sinônimo de poder no pós-guerra e da ascensão econômica do país, que quase certamente irá perder as eleições antecipadas para agosto.
O Japão é um país de incríveis milagres, como renascer das cinzas (radiotativas) depois da derrota na Segunda Guerra Mundial e em uma geração assumir a posição de segunda economia mundial. Mas agora muitos fatores pesam contra uma revitalização e um dos mais cruciais é a demografia. O Japão é o país mais grisalho do mundo e sua população está encolhendo. Assim fica difícil reencontrar o caminho da vitalidade econômica. Hoje, 21.5% da população têm mais de 65 anos, uma fatia que deverá engordar para 39% em 2050.
O japonês tem uma expectativa de vida de 81.2 anos, mas a população está encolhendo, o que não impede o país de renegar imigrantes e trabalhadores estrangeiros, a destacar brasileiros, em tempos de crise econômica. A população hoje de 127 milhões está projetada para despencar 30%, para 89 milhões, em 2055, devido à anêmica taxa de fertilidade.
Tal situação demográfica terá profundas implicações econômicas. Com uma força de trabalho mais enxuta, o crescimento econômico será mais minguado, a arrecadação tributária vai cair, o orçamento espremido e as despesas previdenciárias encarecidas. O Japão não irá desembocar na rua da miséria, mas haverá um declínio absoluto da riqueza nas próximas duas décadas. Por algumas projeções, a renda do japonês em 2024 voltará aos níveis de 1997.
E temos também as implicações estratégicas. Gastos com defesa no Japão sempre têm pouco appeal popular, num país em que o sentimento pacifista precisa conviver com o ressurgimento nacionalista. E as prioridades orçamentárias devem se concentrar cada vez em gastos como saúde, devido ao envelhecimento da população, em detrimento dos militares. A aversão japonesa para enviar seus jovens para missões de combate deve aumentar ainda mais. O pais ficará mais insular, apesar de desafios geopolíticos como as provocações nucleares norte-coreanas e o gigantismo chinês.
Esta trajetória poderá ter efeitos benéficos. Ficará mais difícil demonizar o Japão como no passado, com as acusações de planos hegemônicos na Ásia e de remilitarização. A evolução japonesa também será um desafio para os vizinhos, em particular a China. As opções para a China ascendente são tratar o rival tradicional com dignidade e forjar uma relação de cooperação ou destratá-lo como uma potência decadente.
O aliado e protetor norte-americano não poderá exigir tanta assistência do Japão em missões internacionais como no Iraque e Afeganistão. Os EUA tampouco poderão esperar tanta disposição japonesa para financiar sua dívida pública (um encargo que também incomoda cada vez mais os chineses).
E de pensar que há duas décadas o Japão era visto como uma ameaça porque crescera demais. Cresceu, mas também envelheceu rapidamente.
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