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Na república popular da China, o povo é o inimigo

10/07 - 05:45 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- O presidente chinês Hu Jintao promete "castigo severo" para os responsáveis pelos distúrbios étnicos na província de Xinjiang, as autoridades comunistas acenam com execuções e mantêm a cantilena de que ativistas da minoria muçulmana uigur receberam treinamento da rede terrorista Al Qaeda. O regime comunista responde ao desafio com mão de ferro e maciça propaganda.

Dirigentes como Hu Jintao conhecem a cartilha. Aprenderam que é assim que sobem na vida em Pequim. O presidente, por exemplo, tem experiência pessoal para esmagar distúrbios étnicos. Era o homem-forte no Tibete durante a insurreição em 1989, o mesmo ano em que estudantes foram massacrados na Praça da Paz Celestial, em Pequim.

A liderança do Partido Comunista que endossou as espetaculares reformas econômicas dos últimos 30 anos nunca se intimidou com a necessidade de usar força bruta quando surgem protestos políticos ou étnicos. Na verdade, a cúpula dirigente estabelece um vínculo direto. O esmagamento da dissidência no Tibete e em Pequim há 20 anos foi visto pelos como essencial para impulsionar reformas econômicas.

Estas reformas que abriram caminho para a China crescer e ganhar a estatura de superpotência emergente no século 21 andam de mãos juntas com um nacionalismo cada vez mais virulento. As reformas econômicas e o nacionalismo são fontes vitais de legitimidade na medida em que a ideologia comunista secou.

Mas a violência e os conflitos étnicos dos últimos dias mostram o fracasso do modelo de desenvolvimento chinês para Xinjiang e o Tibete, pois não basta dar alguns pacotes de modernização para acalmar e enquadrar minorias, que, de qualquer forma, sentem-se discriminadas economicamente, além de culturalmente reprimidas. Mais do que isto, é inquietante quando esta modernização autoritária vem acompanhada do nacionalismo que beira o chauvinismo han (o grupo étnico dominante na China).

A truculência coexiste com uma certa sofisticação no aparato de propaganda. Há a acusação habitual e implausível de que os distúrbios são orquestrados por forças externas, mas não há um blecaute de informação como aconteceu nos incidentes sangrentos no Tibete no ano passado, antes dos Jogos Olímpicos. A tática oficial é inundar a imprensa (local e internacional) com imagens sugerindo que toda violência foi praticada pelos uigures contra os hans.

O resultado foi exaltar os ânimos dos hans, que também partiram para a briga. Mobilização nacionalista (ou chauvinista) sempre é um perigo, pois pode fugir ao controle dos manipuladores. O regime comunista, que supostamente governa em nome do proletariado e do campesinato, não está hoje ameaçado, mas tem motivos para temer o potencial de instabilidade popular. O recado é claro: manifestações que desafiem a autoridade do Estado serão brutalmente esmagadas. O regime é antipovo, contra-revolucionário.





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