08/07 -
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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK - A imensa e remota província de Xinjiang, no noroeste da China, é palco dos mais violentos distúrbios sociais no país desde o massacre de estudantes em Pequim em junho de 1989. Não eram estas as cenas que o regime comunista queria apresentar em 2009, aniversário dos 60 anos da revolução maoísta. A gravidade do problema foi sublinhada pelo retorno do presidente Hu Jintao da Itália, onde estava para a reunião do G-8.
No lugar da falida ideologia comunista, as fontes de legitimidade são a ascensão econômica e um nacionalismo que beira o chauvinismo. São fontes de legitimidade que colidem com a realidade de um país com 55 grupos étnicos e disparidades sócio-econômicas entre eles. E conflitos étnicos são inevitáveis mesmo em sociedades tolerantes e democráticas.
A China, porém, está mais à vontade para suprimir os sintomas de tensões étnicas do que em buscar soluções para os problemas que os causaram. O autoritarismo central abafou estas tensões étnicas em muitas partes do país, mas em algumas províncias, minorias não foram pacificadas, como Xinjiang, que no jargão oficial é uma "região autônoma".
Como no Tibete, cenário de distúrbios sangrentos no ano passado, os uigures em Xinjiang, que são predominantemente muçulmanos, sentem-se marginalizados com os benefícios conferidos aos chineses da etnia han (90% da população nacional), que foram trazidos para a região.
A violência desta semana é praticada não apenas pelas forças de seguranças, mas por integrantes dos grupos étnicos rivais e as indicações são de que os uigures foram os responsáveis pela eclosão em larga escala. Em 1949, os hans representavam 6% da população de Xinjiang. Hoje compõem 41% dos 19 milhões de habitantes da província. Na fórmula oficial, existe a luva de veludo da ajuda econômica, mas com o punho fechado da repressão cultural e religiosa.
No script habitual, as autoridades chinesas acusam exilados uigures com uma agenda separatista de instigarem os distúrbios, em particular a ativista Rebiya Kadeer, que vive em Washington. Com isto, a crise é colocada num contexto de soberania, privando a dissidência de qualquer legitimidade, vista meramente como conspiratória. Nas denúncias governamentais, ativistas uigures são associados à rede Al Qaeda e de fato alguns foram capturados no Afeganistão pelos americanos e enviados para a prisão de Guantánamo.
Os uigures realmente têm mais afinidade com seus vizinhos na Ásia Central do que com o governo central, em Pequim. Sentimentos separatistas sempre existiram na província anexada no século 19 pelo império chinês, mas nunca nunca se transformaram em uma mobilização significativa na era comunista devido à repressão. Estes sentimentos ficaram mais visíveis com a a fragmentação da União Soviética (e criação de países independentes na Ásia Central) e o crescente domínio dos hans na província.
Os uigures muçulmanos não têm a visibilidade internacional dos tibetanos budistas e carecem de um líder com a força espiritual e política do Dalai Lama. Com os distúrbios desta semana, os uigures foram colocados no mapa (pelo menos para nós, de fora). E o mapa mostra que Xinjiang é uma região estratégica, que faz fronteira, com a Rússia, Paquistão e Afeganistão, além de ex-repúblicas soviéticas, cobre 1/6 do território chinês e é rica em recursos energéticos (gás e petróleo).
Na sua marcha para a prosperidade econômica e triunfo nacionalista, o regime comunista vai tratar a questão dos uigures com zelo truculento e não com carinho. Na mentalidade burocrática e repressora, até o tempo é controlado em Xinjiang. Os relógios devem acompanhar a hora oficial de Pequim, embora no fuso a província esteja duas horas para trás.
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