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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Para não deixar dúvidas sobre o que estava em jogo na entrevista na TV ABC no domingo, o jornalista fez a pergunta três vezes para o vice-presidente americano Joe Biden, lendário pela loquacidade e gafes. E Biden foi consistente: Israel é um país "soberano" para decidir como lidar com o Irã, ou seja, para lançar um ataque às instalações nuclares. Biden não foi tão prolixo para dizer se os EUA permitiriam que aviões isralenses sobrevoassem o Iraque, que não é tão soberano assim, em rota para o Irã.
Qual é a jogada d Biden? Não é um sinal verde para Israel lançar um ataque, mas uma advertência ao Irã para que negocie seriamente com os EUA o fim de suas ambições nucleares. O governo Obama deu a Teerã até o final do ano para uma conversa séria sobre o seu programa nuclear, que o Irã insiste tem finalidades pacíficas. Israel, que se considera o alvo das ambições iranianas, nunca considerou a cartada diplomática muito promisssora, especialmente depois dos protestos populares em junho, após as eleições, vistas em geral como fraudulentas, que mantiveram Mahmoud Ahmadinejad no poder.
O regime de Teerã reagiu com brutalidade aos protestos e endureceu a retórica nacionalista, inclusive recorrendo a uma narrativa de que existe uma conspiração internacional manipulando os oposicionistas, agora abençoados por muitos clérigos islâmicos. Para Israel, a única opção, além de um ataque militar, é um pacote de sanções tão duras que simplesmente paralisem o Irã. Claro que pode ser um tiro pela culatra, pois o regime, que não tem demonstrado um pendor humanitário por estes dias, tentaria arregimentar a opinião pública contra um cerco internacional desumano.
Além de uma advertência ao Irã, as declarações de Biden parecem ser uma recompensa ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que finalmente endossou a mera idéia de um Estado palestino, como pressionava a Casa Branca. Para a desolação de Netanyahu, que considera o Irã prioritário e de extrema urgência, o governo Obama vincula a crise palestina ao impasse nuclear, avaliando que progressos para a criação de um Estado palestino deverão isolar o Irã no mundo árabe.
Netanyahu ficou mais discreto nas últimas semanas para fazer alertas públicos contra o Irã, preferindo atuar nos bastidores diplomáticos (nos EUA, Europa e Rússia) para transmitir a mensagem de que a paciência de Israel com o Irã é limitada. Um lance ilustrativo foi o vazamento de informação ao jornal britânico "Sunday Times", imediatamente desmentida, de que a Arábia Saudita, aliado-chave dos EUA no Oriente Mëdio, teria concordado em autorizar aviões israelenses a sobrevoarem o país em rota para um ataque contra o Irã.
É uma visão comum nos EUA, em particular entre os setores mais conservadores, que o mundo árabe publicamente condenaria um ataque israelense contra o Irã, mas daria apoio tácito nos bastidores e respiraria aliviado com um revés no programa nuclear do regime xiita. Uma outra visão é que um ataque, mesmo contra alvos meramente nucleares, tornou-se ainda mais arriscado e complicado com a mobilização doméstica contra um regime que assumiu de vez sua face mais truculenta. Existe também uma face mais humana, dilacerada por um governo policialesco.
A pergunta a ser feita é: como bombardear o país de Neda? Uma alusão à jovem morta nas manifestações em Teerã, provavelmente por um paramilitar, e que se converteu em ícone da resistência. Claro que na narrativa do regime islâmico, Neda foi morta pelos "satânicos" inimigos externos para inflamar os ânimos.
Por ora, o sinal está amarelo para um ataque contra o Irã.
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