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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Com o legado de escravidão, segregação racial e injustiças sociais, os EUA empreenderam uma jornada para acertar as contas corretamente com a história. Desde os anos 60, ferramentas como ação afirmativa (que podemos chamar de cotas raciais ou discriminação positiva) têm sido usadas para colocar as coisas nos eixos. O Ato dos Direitos Civis, de 1964, foi essencial para assegurar aos negros, vítimas da infâmia histórica, acesso a "direitos inalienáveis" como a "busca da felicidade", pedra de toque dos ideais americanos.
Mas o caminho desta jornada de busca de retidão tem cada vez mais curvas, pois com os progressos históricos para minorar a discriminação ficam mais patentes as tensões entre justiça e igualdade de oportunidades.
Esta semana, em uma decisão apertada de 5 x 4, a Corte Suprema decidiu que 18 bombeiros (17 brancos e um latino) foram "injustamente" discriminados quando a cidade de New Haven abriu mão de um exame com vistas à promoção na carreira porque nenhum negro tivera nota suficiente para ser promovido. A decisão recebeu muita atenção pois a juíza Sonia Sotomayor, - indicada para o Supremo pelo presidente Obama na condição de primeira latina-, em instância inferior, ficara do lado da cidade de New Haven.
Os quatro conservadores na Corte com o voto do flutuante juiz Anthony Kennedy prevaleceram. A posição da minoria dissidente, apoiada pelo governo Obama, reflete a persistência de idéias liberais para tratar ação afirmativa como uma rígida ferramenta, sempre útil, ou seja, evita-se aceitar as consequências negativas no mundo real de um instrumento positivo.
Estão aí, portanto, uma nova realidade e e novos dilemas. Quando o país tem o seu primeiro presidente negro, a taxa de desemprego entre homens brancos aumenta a um ritmo duas vezes maior do que entre homens negros na atual recessão. O risco é de que a ação afirmativa seja menos um direito e mais um privilégio.
O principal envolvido no processo contra a cidade de New Haven era o bombeiro branco Frank Ricci. Ele largou um segundo emprego para ter mais tempo para estudar com vistas ao exame. E devido à dislexia, gastou dinheiro para comprar audioteipes e assim poder se preparar. Apesar das dificuldades, Ricci passou no exame. Merecia a promoção, que foi negada pois New Haven priorizou diversidade e não qualificação. Uma das justificativas da cidade era que caso promovesse os brancos seria processada por discriminação racial por minorias.
Mas Frank Ricci e seus colegas brancos foram efetivamente discriminados. Eles, portanto, personificam o impacto negativo da "discriminação positiva". Estes bombeiros são reais, não uma abstração. A juíza Sonia Sotomayor também é real. É um grande exemplo das conquistas da ação afirmativa, que permitiu sua aceitação nas melhores universidades. Diversidade tem benefícios práticos. E justiça seja feita. Era hora latina na Corte Suprema, que durante boa parte de suas existência foi um feudo de homens francos (hoje tem seu segundo juiz negro, Clarence Thomas, e segunda mulher, Ruth Ginsburg).
Mas o risco na sociedade em geral é quando diversidade é imposta em seu próprio benefício. Aí a cura pode se tornar uma nova doença discriminatória. A sociedade parece consciente do risco. Uma recente pesquisa da Quinnipiac University sobre o caso Ricci revela que sete em dez americanos, inclusive 53% de negros, acreditam que New Haven deveria ter promovido os bombeiros brancos mesmo que nenhum negro tivesse nota suficiente para ser qualificado.
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