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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Maravilha! Somos todos hondurenhos nesta corrente para frente que une Barack Obama e Hugo Chávez contra o golpe, pela legalidade democrática. O presidente deposto Manuel Zelaya foi aclamado nas Nações Unidas, povoada de países ditatoriais da Ásia e África. Quarteladas deveriam ser coisas do passado na América Latina, onde a estabilidade política e eleições livres foram conquistas históricas nas últimas duas décadas.
Na quarta-feira, os países-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), em decisão unânime, invocaram pela primeira vez a Carta Democrática Interamericana, firmada em 11 de setembro de 2001 (que dia!), para que a entidade adote medidas diplomáticas de emergência para restaurar um governo legitimamente eleito.
Reação apropriada, embora Zelaya não seja um herói da resistência ideal pois desafiara decisões da Corte Suprema e do Congresso do seu país para que não fosse adiante com o plano de referendo que abriria caminho para a extensão de sua permanência no poder. Até o oráculo conservador americano, o "Wall Street Journal", observou em editorial que os adversários de Zelaya pisaram na bola quando deram o golpe e o despacharam para o exílio. A rota constitucional adequada era um processo de impeachment.
Curiosamente, este momento glorioso no hemisfério também revela hipocrisia nos lances para que Cuba volte a ter uma plena participação na comunidade interamericana. Países como o Brasil, tão ativos para que as regras democráticas sejam retomadas em Honduras citam princípios de não-intervenção em assuntos internos quando defendem o direito de Cuba, uma ditadura, ser sócia com todas as regalias do clube hemisférico (a rigor, o grande obstáculo é colocado pelos EUA). Vale lembrar que a Carta Democrática considera democracia uma precondição para um país ser membro pleno da OEA. Este documento foi firmado em um 11 de setembro, dia infame para a humanidade, não apenas pelos ataques terroristas nos EUA, mas por ser a data em 1973 em que os militares chilenos derrubaram num golpe o governo legitimamente eleito do esquerdista Salvador Allende.
É evidente que existe um prontuário de hipocrisia dos EUA, que sempre denunciaram a ditadura cubana ao mesmo tempo em que endossaram ou participaram de golpes de direita, como no Chile em 1973. Mas estão aí os esforços do governo Obama para deixar de lado a seletividade moral, para a desolação de setores da direita americana.
Aliás, Obama foi duro com o colega colombiano Álvaro Uribe, no primeiro encontro dos dois esta semana em Washington. O presidente conservador colombiano tem seus ímpetos chavistas de permanência no poder e quer mudar as regras do jogo para que possa ter um terceiro mandato. "Dois mandatos bastam", disse Obama, lembrando que a experiência americana mostra que dois mandatos funcionam e que depois de oito anos de um governante a população quer mudanças.
De fato, os americanos foram sábios e emendaram a Constituição impondo o limite dos dois mandatos, depois da morte de Franklin Roosevelt, logo após o início do seu quarto mandato em 1945. Sabedoria de democracias burguesas, diriam catedráticos do poder ditatorial como Fidel/Raul Castro ou o líbio Muamar Khadafi, com o qual o presidente Lula esteve na quarta-feira. Sabedoria ponto. Abaixo os golpes e também aqueles com longa vida no poder.
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