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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Em linguagem orwelliana, o primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki saúdou a saída das tropas ocupantes norte-americanas dos centros urbanos e anunciou que o governo de coalizão foi bem sucedido para abafar a guerra sectária que ameaça a soberania nacional. Maliki não mencionou que ele ocupa o governo graças às tropas ocupantes ou que elas estão em combate ha mais de seis anos no país, e que permanecerão no Iraque até o final de 2011, como parte de um acordo entre Washington e Bagdá. Já o presidente Jalal Talabani foi mais camarada e expressou gratidão às forças estrangeiras que derrubaram a ditadura de Saddam Hussein em 2003.
Veja imagens da retirada e da festa iraquiana
A celebração oficial acontece em meio a uma nova escalada de violência no Iraque (quase 300 vítimas nos últimos dias), que testa a gradual retomada de soberania iraquiana. Este gradualismo não teria acontecido sem o sucesso do reforço de tropas americanas em 2007, no governo Bush, e da cooptação de tribos sunitas para combaterem a rede Al Qaeda e não mais os "infieis" americanos e seus "colaboracionstas" xiitas no governo.

Forças iraquianas tomam controle da segurança nas cidades do país / Reuters
Mas este sucesso foi tático Em termos estratégicos, é um fracasso. O plano militar era ganhar tempo para a reconciliação política. Mas os líderes iraquianos não tiram vantagem da situação. Esquadrões da morte sunitas estão aí, assim como milicias xiitas, talvez à espreita, apenas aguardando que as tropas americanas fiquem aquarteladas para entrarem em ação. A situação política continua muito precária.
É cedo para dizer se a escalada de atentados terroristas nos últimos dias sinaliza a retomada da guerra civil ou apenas um fôlego desesperado de extremistas sunitas e de remanescentes do regime de Saddam Hussein. O Iraque ainda está longe da carnificina de 2006/2007. Em maio, foi registrado o menor número de mortes violentas desde a invasão americana.
Um dos objetivos desta campanha terrorista é mostrar aos cidadãos que o governo Maliki e as forças de segurança locais não têm condições de protegê-los. E na minoria sunita existe inquietação que as forças de segurança, dominadas pelos xiitas, podem inflamar as tensões sectárias.
Ironicamente, hoje o Iraque tem mais soldados e policiais do que na época de Saddam Hussein. São 620 mil, 25% a mais. Na avaliação do Pentágono, porém, apenas 17 dos 175 batalhões do Exército são capazes de empreenderam operações de contrainsurgência por conta própria, sem assistência americana e de seus aliados estrangeiros. A avaliação é ainda pior para a polícia nacional, com apenas 2 dos 34 batalhões em condições de darem conta do serviço.
De qualquer forma, a remoção das tropas americanas dos centros urbanos é um passo crucial para que os iraquianos assumam responsabilidade por seu próprio destino. O Iraque começou como uma guerra de escolha, e não de necessidade, de George W. Bush. A propriedade vai sendo transferida para o governo Maliki, enquanto Barack Obama tem sua guerra de escolha nas bandas do Afeganistão e Paquistão. Sobre o Iraque, porém, nunca poderemos ser orwellianos. A guerra nunca será paz para os americanos.
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