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06:27
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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK - Talvez nem Miguel Ángel Asturias e Gabriel Garcia Márquez saberiam o que escrever sobre o golpe em Honduras, um daqueles países da América Central que é sinônimo de república de banana. Até que as coisas estavam constitucionalmente maduras na região, sem nenhum golpe desde o final da Guerra Fria.
Os clichês não se aplicam com facilidade desta vez em Honduras. O presidente deposto, Manuel Zelaya, era um filho do sistema político mais convencional (de partidos oligárquicos) que passou a abraçar a causa bolivariana do companheiro Hugo Chávez, em particular a extensão do mandato e a "democracia participativa", ou seja, mais participação das massas e menos das instituições. Tudo num esquema orquestrado por um caudilho populista. No caso específico de Zelaya, ele arquitetava a permanência no poder além de janeiro, quando termina seu mandato único de quatro anos.
Chávez não perdeu tempo para repetir o desgastado script e acusar o "imperialismo ianque" pelo golpe "troglodita", mas hipérboles chavistas colidiram com a cautela de Barack Obama, tentando convencer o continente que o tempo da caricatura acabou. Os EUA desta vez são contra um golpe, ao contrário do desastrado apoio à intentona contra o próprio Chávez em Caracas, em 2002, na época de George W. Bush. Autoridades americanas insistiam ao longo de segunda-feira que aconselharam os golpistas a não golpear.
É sempre uma trarefa ingrata mesmo para o hábil Obama não escorregar na casca de banana diplomática. Sua cautela na crise iraniana foi recebida com insatisfação pela direita americana e quando aumentou um pouco a temperatura retórica se tornou alvo de chavões da dupla Khamenei-Ahmadinejad para não se intrometer na farsa eleitoral local.
Havia um recado para Obama ocupar rapidamente a cena na crise hondurenha, mas na América Latina isto é impossível com Hugo Chávez. Ele foi o segundo a roubar a cena com seu alarido, depois dos golpistas. O barulho de Chávez abafa o fato histórico de um continente no geral unido contra o golpe hondurenho. Mas é uma situação intrigante. O ianque Obama, na segunda-feira, na Casa Branca, qualficou a remoção do amigo de Chávez como ilegal. Estava ao lado do presidente direitista da Colômbia, Álvaro Uribe, que, como tantos companheiros esquerdistas no continente, não aceita as regras do jogo e quer mudar a Constituição para que possa concorrer a um terceiro mandato.
Os inimigos internos de Zelaya conseguiram transformar o presidente deposto em um mártir. Perderam a credibilidade legalista com um golpe depondo um presidente que se insurgira contra decisões da Suprema Corte e do Congresso para que não se realizasse o referendo constitucional que abriria caminho para sua permanência no poder.
Não dá para tratar Zelaya como um herói da resistência, mas os adversários, que o despejaram do palácio, quando estava na cama de pijamas e o botaram para fora do país, tampouco são baluartes de uma causa nobre. Zelaya foi democraticamente eleito. As lideranças hondurenhas, dos dois lados, escorregaram na banana. A solução ideal seria restaurar Zelaya no poder, mas forçá-lo a respeitar a Constituição até que a eleição de novembro permita que um novo presidente assuma em janeiro. Nada é fácil quando no cenário estão oligarquias e Hugo Chávez.
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