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Imprensa frenética ajuda a reviver Michael Jackson

29/06 - 06:00 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- O deposto rei do pop está morto. Esta primeira frase estava em um dos textos iniciais na edição online do "New York Times", logo após a morte de Michael Jackson na quinta-feira, mas doses de veneno e ironia na cobertura jornalística estão abaixo da necessidade. Há um senso absurdo de solenidade. E nunca pensei que iria concordar com Hugo Chávez, que já na sexta-feira deu palpite sobre um excesso noticioso.

 

Não estou aqui para enterrar ou elogiar Michael Jackson. Confesso minha ignorância musical e como obrigação jornalística cobri apenas o longo prontuário de escândalos e bizarrices do megastro. Esta indústria deve continuar prosperando sem o seu fundador. Que thriller! Michael Jackson morre e o circo vive.

A comoção da chamada mídia séria não é palhaçada. É patética. Ela mergulhou na cobertura do caso Michael Jackson com o mesmo despudor da mídia menos pretensiosa. E nem é novidade. Com cada vez mais frequência, jornalões citam ou confirmam uma informação através de sites de celebridades como o TMZ, não esperando pelas vetustas agências como AP ou Reuters.

Esta mídia tradicional vive em alta ansiedade, à beira de um colapso nervoso, sem falar é claro da falência física de muitos dos seus veículos. Abraçar com sofreguidão a cultura popular e seus ícones dá conta de vários recados: mostra que é menos elitista, se conecta com o público jovem ou indiferente às notícias convencionais (e "chatas") e prova que pode usar com gosto a Internet, o motor da cultura de celebridades e também, é claro, motivo de ansiedade e de confusão na mídia tradicional.

É estupidez jornalística não surfar na onda em uma notícia como a morte de Michael Jackson, mas aqui houve um caso da besta midiática inflando a bolha, num excesso para lá de irracional. Lembrando o óbvio, não dá para comprar o argumento de que a mídia reflete passivamente a sociedade, ou seja, dando o que a massa pede. Ela tem um papel formador não apenas de opinião, mas de estado de espírito. Produtores e consumidores ficaram histéricos. Este excesso jornalístico ajudou a reviver o rei deposto e por dois dias simplesmente escondeu notícias importantes ( a rigor, mais importantes).

O site TMZ está na dele, mas a mídia tradicional, inclusive na versão online e nos canais de televisão por assinatura, desgovernou e simplesmente abafou por um tempo o noticiário, por exemplo, sobre a repressão no Irã. E Chávez tinha razão quando deu um pito na CNN, que na obsessão com Michael Jackson ignorou a crise em Honduras, que culminou no golpe de Estado no domingo.

Como no caso da morte da princesa Diana em 1997, este frenesi Michael Jackson não é um momento glorioso da mídia. No seu desespero e ansiedade, ela é desonesta na tentativa de criar um falso senso de comunidade global, com um evento gigantesco de idolatria religiosa. manipulando as emoções genuínas de muita gente. Fica tudo parecendo mais esquisito do que Michael Jackson.





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