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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Vamos aceitar por um momento as metáforas lulistas-futebolísticas. O Irã está vivendo a paixão pós-jogo. Depois de exaltação com o resultado, flamenguistas e vascaínos vão para casa (podemos fingir que ninguém vai para a prisão ou para o cemitério). Mais do que isto, credulamente, vamos até aceitar que Mahmoud Ahmadinejad venceu limpamente o jogo (ele é flamenguista ou vascaíno?). Que tipo de Irã emerge deste cenário ou estádio?
É o pior tipo de cenário: a vitória da democracia iliberal. Em termos mais incisivos, é o triunfo tanto da democracia como da repressão. Para alguém como Ahmadinejad, este novo mandato é a oportunidade para consolidar sua posição, sufocar a dissidência com o braço forte do aparato de segurança e vigilantes islâmicos, militarizar ainda mais o Estado e acertar as contas com a velha guarda da revolução islâmica sob a cobertura de uma cruzada anticorrupção.
No seu primeiro mandato (primeiro tempo do jogo?), Ahmadinejad colocou seus companheiros da Guarda Revolucionária à frente dos ministérios e empresas estatais, sedimentou seu pacto social com uma setor da população de baixa renda e fervorosamente religiosa e inflou o orgulho nacional de muita gente com sua retórica de desafio em política externa e infâmias históricas como negar o Holocausto.
Se aceitarmos a farsa de Ahmadinejad com 2/3 dos votos, ele é um presidente muito poderoso. Precisa ainda do suporte do líder supremo, o aiatolá Khamenei, que, por sua vez calculou que precisa do presidente para a sobrevivência da revolução. Ë um casamento arranjado e o preço será a alienação ou mesmo a perseguição de outros líderes religiosos, além da derrubada de uma fachada de união teocrática e nacional.
No plano externo, o governo Obama tem agido com cautela. A palavra-de-ordem é não se meter demais na crise iraniana e se preparar para engajar o regime, não importando o governante de plantão. Mas é difícil ver em que meio-de campo os americanos poderão jogar com o extremista Ahmadinejad. Na sua versão da história, ele triunfou nas eleições em parte porque é um campeão do programa nuclear e peitou o Grande Satã. Ahmadinejad proclamou na terça-feira na Rússia o fim "da era dos impérios" (não o dele, é claro).
A realidade, porém, é mais complicada para o negador do Holocausto. Quanto a nós, nada de negar a realidade. Ahmadinejad pode, de fato, consolidar sua posição. Os protestos exuberantes podem se dissipar ou serem esmagados à la China (Praça da Paz Celestial). Podem, podem. Vamos terminar com uma metáfora lulista: o jogo não acabou.
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