17/06 -
08:11
-
Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK - Em meio à mobilização de amplos setores da população iraniana que denunciam que seus votos foram "roubados", não podemos perder de vista como o processo eleitoral em si é ilegítimo.
Ironicamente, os manifestantes bradam o que se bradava há 30 anos nos protestos que levaram à derrubada do despótico regime do xá Reza Pahlevi. No calor da luta, então, parecia possível então conciliar "azadi" (liberdade) com "yumuriya islami" (república islâmica). Mas o aiatolá Khomeini, em 1979, de imediato, determinou a marcha para a teocracia, com um papel secundário para a democracia.
Para os mais cínicos (sempre uma posição fácil), a visão é de que o regime nunca teve a intenção de permitir uma livre disputa para a presidência em 12 de junho. Sempre foi uma farsa. Basta lembrar que o Conselho dos Guardiões ( controlado pelo guia supremo, o aiatolá Khamenei), disposto agora a aceitar apenas uma insatisfatória recontagem parcial dos votos, é o mesmo que veta quem pode ou não concorrer à presidência. Neste pleito, 475 candidatos foram desqualificados (todas as 42 mulheres). Somente quatro deles, entre eles Mahmoud Ahmadinejad e Mir Hussein Moussavi, foram considerados "seguros" para concorrer.
Mousavi, na verdade, foi arrastado pelos acontecimentos nas últimas semanas, quando setores "menos seguros" embarcaram na sua onda eleitoral, a onda verde. Hoje ele assume o papel de líder da resistência, mas tem impecáveis credenciais da revolução islâmica. Mais uma revolução devora seus filhos e gera monstros. Basicamente, Moussavi é um moderado que prometeu mais liberdades, uma face menos belicosa para o mundo lá fora e tem muito mais competência técnica (foi um eficiente primeiro-ministro nos anos 80) do que o irresponsável e delirante populista Ahmadinejad.
Uma outra visão sobre a turbulência é a de que Khamenei parecia inclinado a aceitar o cenário de uma vitória de Moussavi (mais provavelmente em um segundo turno eleitoral nesta próxima sexta feira). Afinal, a revolução já permitiu outras ondas reformistas como válvula de escape ou mera incapacidade para conter as diversidades. Na última hora, porém, Khamenei teria recuado com medo que a onda tragasse a própria revolução islâmica.
Num quadro volátil, o debate sobre a legitimidade do processo eleitoral pode ser tragado por uma mobilização que questione a legitimidade da revolução islâmica. O sistema pode sobreviver, mas despojado de sua fachada democrática.
Leia também:
Leia mais sobre: Irã
Publicidade