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O triunfo de Ahmadinejad e o voto de desconfiança

16/06 - 06:42 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Será que podemos aceitar fervorosamente, como um fanático religioso, que houve fraude nas eleições iranianas? Não precisamos de fé. Apenas de bom senso e alguns dados. Alguns leitores desta coluna cobram, com razão, as provas do crime. Por que duvidar que Mahmoud Ahmadinejad tenha conseguido 2/3 dos votos na eleição de sexta-feira?

 

No híbrido sistema político iraniano (semidemocracia ou semiditadura?), nunca existiram dúvidas, em meio às paixões eleitorais, que Ahmadinejad tem uma base de sustentação popular. Com populismo, sua origem humilde, seu nacionalismo virulento, uma "cruzada" contra a corrupção e o desgaste de elites tradicionais, ele construiu esta base.

Ahmadinejad representou sangue novo na revolução islâmica, uma espécie de segundo ciclo para se contrapor a forças modernizantes e cansadas do sufoco social e moral. Há uma questão classista na mensagem de Ahmadinejad: ele é a voz de classes mais baixas, mais fervorosas e mais conservadoras. E de quebra, com o aparato de segurança e tropas de assalto. Se vamos provocar para valer, podemos dizer que Ahmadinejad é o arauto do fascismo islâmico. 

Mas vamos ao que interessa nesta polêmica: ele teria como emplacar com 2/3 dos votos no primeiro turno? A mera mobilização popular de desafio aos números oficiais, que não foi orquestrada por gente de fora, mostra como este cenário de vitória fulminante deve ser recebido com descrença. Falo isto reconhecendo que muitos analistas, inclusive este escrivão, mancharam sua objetividade torcendo contra Ahmadinejad. Como se diz em inglês, em muitos comentários havia "wishful thinking".

Mas a decepção pós-eleitoral é baseada em bom senso. O comparecimento às urnas foi de 82%, sem precedentes. Foi tão alto porque desta vez não houve booicote de quem considera o processo eleitoral uma perda de tempo. Como acreditar que os convertidos iriam votar no agente do status quo?

Não vamos citar apenas a mídia ocidental (ou pró-sionista, no jargão de Ahmadinejad). O site da "Al Jaazera" levanta várias questões intrigantes: Ahmadinejad venceu com facilidade em Tabriz, coração da província da minoria étnica azeri e cidade do candidato Mir Hussein Moussavi. Em 2005, o azeri Mohsen Mehralizadeh chegou nacionalmente em sétimo lugar na eleição vencida por Ahmadinejad, mas ganhou em Tabriz.

Outro ponto: a contagem era atualizada na sexta-feira e Ahmadinejad nunca se afastava da faixa de 62% dos votos, não importando o distrito eleitoral. Mais do que isto, a agência estatal de notícias Fars anunciou a vitória do presidente, com 2/3 dos votos, antes da tabulação dos primeiros resultados oficiais. Moussavi reagiu se declarando o vencedor.

Ahmadinejad é o recordista de votos na história iraniana. Ele ganhou em todas as 30 províncias e em todas as categorias sociais e etárias. Não tem lógica acreditar que o presidente que administrou alta de inflação e de desemprego, tenha números tão altos nas urnas.

Aqui nos EUA, há um debate passional em sites em razão de um artigo publicado na segunda-feira no "Washington Post" por dois americanos, Ken Ballen e Patrick Doherty, argumentando que a cifra dos 2/3 dos resultados é compatível com pesquisa que fizeram semanas antes do pleito.

No seu blog, o responsável por pesquisas do próprio "Washington Post", Jon Cohen, tem colocações interessantes. Ele reconhece que não pode avaliar várias pesquisas feitas no Irã indicando o avanço do reformista Moussavi antes do pleito, mas assume seu ceticismo sobre as conclusões da dupla Bollen e Doherty. A pesquisa foi conduzida entre 11 e 20 de maio, ou seja, não captura a incrível volatilidade política que culminou na votação de 12 de junho, a destacar a decisão de setores cínicos, apáticos e genuinamente reformistas de surfarem na onda de Mussavi.

A pesquisa enfatiza a vantagem de 2 a 1 de Ahmadinejad sobre Moussavi, mas ela foi registrada em termos estreitos: 34% dos entrevistados disseram que votariam no presidente e 14%, no desafiante. Isto deixa mais da metade fora da conta.

Já Juan Cole, um dos mais respeitados especialistas em questões islâmicas e do Oriente Médio nos EUA, escreve no seu blog "Informed Comment" que os autores do texto de segunda-feira no "Washington Post" omitiram no artigo uma conclusão da própria pesquisa. Eles reconheceram que não esperavam que Ahmadinejad conseguisse os 51% no primeiro turno, assim forçando um segundo. Em maio, quando a pesquisa foi realizada, 42% dos contatados se recusaram a responder. É muito provável que em larga maioria eram contrários a Ahmadinejad e tinham medo de dar uma resposta antigovernamental.

Votaram sem medo nas eleições e continuam votando nas ruas.

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