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Obama precisa tapar o nariz para negociar com o Irã de Ahmadinejad

15/06 - 04:17 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- E agora, Barack? Nenhum véu pode cobrir o dilema do presidente americano. Para dizer o mínimo, como disse no domingo o vice-presidente Joe Biden, a reeleição de Mahamoud Ahmadinejad na sexta-feira, foi duvidosa. A Casa Branca, porém, não pode tratar o duvidoso como escandaloso, como fazem os bravos jovens que estão sendo reprimidos pelas forças de segurança e paramilitares do regime iraniano por denunciarem ser implausível que Ahmadinejad tenha conseguido imaculadamente 2/3 dos votos nas eleições. A única explicação é a fraude. Afinal, o presidente linha-dura ganhou até nos maiores redutos reformistas.

Muita indignação traz dois problemas para os americanos. O primeiro seria de uma intromissão estridente nos assuntos iranianos, algo sob medida para a retórica de Ahmadinejad. O segundo ponto é a realidade. Se Obama está realmente disposto a tentar um diálogo sobre o programa nuclear iraniano e avançar na reconciliação com o mundo islâmico, precisa tapar o nariz e aceitar que Ahmadinejad está aí, mesmo sem legitimidade, como o representante do regime e com a benção do líder supremo, o aiatolá Khamenei.

Mas, sim, ele pode. A marca de Obama é muito mais o pragmatismo do que o idealismo. Os EUA, aliás, têm alianças íntimas com regimes que não fraudam eleições, simplesmente porque não as promovem. Como disse Biden, "conversações com o Irã não são uma recompensa por bom comportamento", mas fruto do cálculo de que elas são convenientes ou não aos interesses do seu país.

Fala-se de uma decepção no governo americano com o desfecho das eleições, ou seja, a nocão de uma vitória do mais moderado Mir Hussein Moussavi provaria como a "onda Obama" é avassaladora. É como se o presidente fosse de fato messiânico e suas palavras teriam o poder miraculoso de criar um admirável mundo novo de pessoas mais sensatas e conciliatórias.

Seguir por este caminho é dar muita colher de chá para Obama. A chamada "onda verde" (de apoio a Mussavi) foi gerada muito mais por frustrações internas com o status quo. Claro que alguém como Obama no cenário estimulou muita gente no Irã a deixar de lado a apatia e o cinismo, apostando em alguém como Mussavi. Mas a maior fonte de inspiração foi o obscurantismo de Ahmadinejad.

A situação no Irã ainda está muito fluída, o que ajuda a explicar a cautela da Casa Branca. Obama também precisa tomar cuidado com excesso de pragmatismo. Não pode parecer que está paparicando alguém como Ahmadinejad. Apesar da falta flagrante de legitimidade internacional, o presidente reeleito pode provocar ainda mais, o que deixaria Obama num papel de idiota. Em contrapartida, Ahmadinejad é o regime sem máscaras ou nuances, como seria o caso de Mussavi no poder.

Nestes termos, o desfecho da eleição é um alívio para Israel. O governo direitista de Benjamim Netanyahu é um grande vencedor das eleições. Nunca houve indicações de que uma vitória de Moussavi levaria o Irã a travar seu programa de enriquecimento de urânio, que Israel considera uma ameaça existencial. Mas nuances confundem e com Ahmadinejad no governo fica mais fácil para Israel simplificar o perigo. Com Moussavi seria politicamente mais complicado para Netanyahu acenar com a carta de um ataque militar contra as instalações nucleares iranianas.

Netanyahu, aliás, faria tudo para que os americanos se concentrassem apenas no perigo iraniano, relegando a questão palestina como um problema muito secundário. Mas Obama insiste em vincular as duas crises para amarrar um pacote que solucione os vários impasses no Oriente Médio.

E no domingo, Netanyahu foi forçado a endossar, pela primeira vez  um Estado palestino, Impôs uma série de condições, como desmilitarização e reconhecimento de Israel como um Estado judaico, o que formalmente fecharia a porta para o retorno de refugiados palestinos. Com razão, os palestinos consideram o avanço de Netanyahu de uma timidez patética (o que já fora empreendido por dirigentes israelenses anteriores), mas é uma reversão dramática para um político que passou sua carreira criticando meros esforços de paz.

São dilemas atrozes para Obama. Ele precisa negociar com adversários como Ahmadinejad e aliados como Netanyahu.





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