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Hoje no buraco, GM já asfaltou sonho americano

01/06 - 00:10 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- As metáforas sobre a GM são irresistíveis. A centenária montadora de Detroit já esteve no volante do capitalismo americano e, como ele, desgovernou. A apresentação do pedido de concordata nesta segunda-feira é um capítulo antológico em uma jornada de glória, arrogância e decadência. E como a matriz do capitalismo global existe expectativa sobre quando e como a empresa sairá da reestruturação, em meio ao realinhamento da indústria automobilística mundial com a ascensão de nomes desconhecidos anos atrás como a indiana Tata e a chinesa Geely.

 

A combalida Geranada Motors já foi o possante motor Generosa Motors. Há 30 anos, ela tinha 45% do mercado americano. Sua fatia encolheu para 22% e será ainda mais enxuta. Hoje o governo federal é o condutor da GM. Já foi contrário, em um momento emblemático do triunfo de Detroit, quando o presidente Eisenhower escolheu o presidente da GM, Charles Wilson, para ser o seu secretário de Defesa.    

Perguntando na audiência de sua confirmação no Senado se o secretário de Defesa poderia tomar decisões contrárias aos interesses da GM, Wilson respondeu que sim, mas o que ficou para a história foi o complemento que ele não poderia imaginar tal cenário, "porque por anos eu pensei que o que era bom para o país era bom para a General Motors e vice versa".

E, de fato, durante o chamado American Century, o impacto da GM na vida americana foi profundo e insinuante. Nos anos 50 e 60, o jingle da GM era "see the USA in your Chevrolet". Era cantarolado pelos americanos. A GM era grande, dominante e autoconfiante, como o país. Ela ajudou a asfaltar o sonho americano, com a cultura do carro, da malha rodoviária e do êxodo da classe média para o subúrbio, ou seja, da consolidação do American Way of Life. Vieram também a dependência do petróleo, a poluição e o desperdício.

Mas com seus acordos fechados com os sindicatos, foi a era da Generosa Motors, que estabeleceu um padrão para o operariado industrial em salários e benefícios. Os trabalhadores da indústria automobilística se tornaram a aristocracia proletária. O histórico Tratado de Detroit, em 1950, deu aos funcionários da GM confortáveis seguro de saúde, aposentadorias e reajustes salariais mesmo em tempos de vacas magras. Em troca, paz social a longo prazo. As obrigações financeiras, claro, explodiram décadas depois e foram fatores do degringolada da Detroit quando competidores entraram no mercado com carros mais eficientes e mais atraentes e os consumidores deram uma brecada.

Parece inimaginável, mas a realidade é que a GM que já foi de Charles Wilson está na linha de montagem da concordata, a maior já realizada por uma empresa industrial. O imperador demora para perceber que está sem roupa ou simplesmente nega a nua e crua realidade. Em agosto passado, na celebração do centenário da GM, o seu então chefão, Rick Wagoner disse: "Eu penso que o futuro é muito brilhante".

Dando um fecho nas metáforas sobre o império americano, vamos esperar que o presidente Obama, seu secretário de Tesouro Tim Geithner (e o da Defesa, Robert Gates) vislumbrem o futuro com mais realismo e eficiência do que a GM. Hoje em dia, o que é ruim para os EUA é péssimo para a GM.

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