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Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Eu sou um fã resignado de "Jornada das Estrelas". Eu sei que a legião do capitão Kirk, Spock, McCoy, Scotty, Sulu, Checov e Uhura perdeu a guerra das estrelas para o império de George Lucas. O meu "Star Trek" cedeu espaço para "Star Wars" como a mitologia americana dominante na ficção científica sideral.
Mas é gratificante ver que o meu império contra-ataca no filme recém-lançado de J.J. Abrams, o décimo-primeiro da série no cinema. A jornada foi idealizada por Gene Roddenberry e à primeira vista não irradiou como se projetava. O seriado de televisão estreou em 1966 e deveria durar cinco temporadas. Teve combustível para três. Mas nasceu o culto e esta nova encarnação é a volta triunfal às origens, não apenas por ser localizada na juventude e batismo de fogo dos personagens mas por reverenciar a mensagem de Rodenberry e também pelo potencial de cativar uma nova geração de fans, ou "trekkies".
Existe uma profundidade filosófica e política em "Jornada nas Estrelas" (é verdade que também profundamente ingênua), mas é um alívio em contraste à grande parte da ficção cientifíca que está aí (sombria, apocalíptica e niilista). Aliás, é um alívio quando o filme começa nos cinemas americanos depois de uma fuzilaria de trailers de outras estreias da temporada, igualmente de ficção cientifíca, mas simplesmente brutais e tenebrosas.
"Jornada nas Estrelas" é evidentemente um épico espacial (há uma inspiração de faroeste), mas é fundamental se deter no seu contexto político e histórico. Na origem nos anos 60, era a concretização do sonho futurista e da oratória de John Kennedy. A "nova fronteira" kennedyana se tornava a "fronteira final". No projeto espacial de Kennedy, os americanos derrotavam os russos e chegariam na Lua em 10 anos. Roddenberry foi muito mais longe na sua utopia. Na retrovisão, existe paz na Terra. A "pax americana" venceu e no século 23 existe a Federação Unida de Planetas. Na nave Enterprise, convivem brancos e negros; americanos, russos, asiáticos, alienígenas e, na suprema harmonia, destaca-se Spock, meio humano, meio vulcano.
O novo filme é atual, pois está recheado de referências a angústias contemporâneas. São dias incertos e de desilusão com modelos vigentes. Existe também o cenário de guerra perpétua. Sai Iraque, entram Afeganistão e Paquistão. Na metáfora óbvia dos ataques do 11 de setembro, os vilões destroem um planeta civilizado (Vulcano). No filme, o velho Spock, num papel sublime do original Leonard Nimoy, encontra o novo Spock e, em nome das velhas gerações, pede desculpas paras as novas.
E a comparação entre Spock e Barack Obama é logicamente inevitável. Esta aí um presidente cerebral que contém intensas emoções, mas têm o talento para invocá-las. O paí de Spock lembra para o filho que ele sempre será "uma criança de dois mundos".
Obama é o mensageiro da esperança e J.J. Abrams disse esperar que seu filme faça do otimismo uma coisa legal novamente nestes tempos sobressaltados. Vida longa e próspera para "Jornada nas Estrelas" e para o nosso planetinha.
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