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O ianque do bem Barack Obama invade América Latina

17/04 - 01:41 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- A Cúpula das Américas se destaca por sua desimportância. Este é o G-34 (o número de países presentes ao encontro de três dias que vai até domingo em Trinidad e Tobago) e faz parte de uma sopa de letras e números na qual mergulham dirigentes. Alguém pode me informar de quantas cúpulas o presidente Lula já participou neste ano? Claro que a reunião num país que já foi antro de piratas e contrabandistas terá alguns lances palpitantes e um pouco de suspense.

 

É o baile de debutante do príncipe Barack Obama na América Latina e Caribe, nunca se sabe se Hugo Chávez tentará estragar a festa e roubar a cena (ele já antecipou que poderá vetar a declaração final) e a ausência de Cuba é notável pois a ilha dos irmãos Castro será tema predominante do convescote.

Vários dirigentes latino-americanos irão novamente investir contra as travessuras financeiras praticadas pelo grande irmão norte-americano, mas sabem que precisam trabalhar com Obama. Basta ver o malabarismo retórico e a expressão corporal de Lula no relacionamento com Obama. De novo, como na cúpula do G-20, em Londres, teremos o impecável desempenho do presidente americano de que ele está aí para escutar, reconhecer defeitos e aparar arestas, mas vamos lembrar o óbvio: os EUA ainda são a superpotência indispensável, embora mais fraca, mais limitada e menos arrogante.

Há limites também para realizar mudancas necessárias. Antes da viagem a Trinidad e Tobago, Washington derreteu um pouco um gelo nas relações com Havana, autorizando mais viagens e remessas financeiras de cubano-americanos para a ilha. Mas não dá para fazer uma reversão imediata do embargo econômico, em vigor há 47 anos, a idade do presidente. Isto vai depender de tortuosas negociações no Congresso, com o lobby anticastrista e de gestos positivos dos irmãos Castro.

Quem sabe, Chávez, secundado por seus hermanitos, despreze estes primeiros lances de Obama e aproveite para aprontar uma emboscada, mas qual é graça quando não está presente "el diablo" George W. Bush? Sera diíicil repetir a onda de protestos e palhaçadas que tiveram Bush como alvo na cúpula de 2005, em Mar del Plata. Para muitos, os EUA continuam sendo um país imperialista, mas Obama é o bom ianque.

O jornal "New York Times" publicou na quinta-feira uma reportagem até de tom sombrio, contrastando a erosão de influência norte-americana na América Latina e o "engajamento mais profundo" da China no hemisfério, mas é ridículo imaginar que um dia a superpotência emergente asiática tenha um papel hegemônico no quintal dos EUA.

O veterano "brazilianista" Abraham Lowenthal diz que viagem de Obama à América Latina durante seus primeiros 100 dias de governo é uma declaração da importância que ele confere à região, na medida em que a crise econômica e alarmantes desafios geopolíticos em outras partes consomem sua administração. A América Latina, no entanto, não está nas prioridades deste governo. As questões continentais urgentes para os americanos, como drogas e imigração, no final das contas integram sua agenda doméstica.

E para o Brasil, a cúpula é importante? Desde a cúpula de Mar del Plata, o país está mais saliente e influente. Para Lula, é ótimo ser paparicado pelo charmoso Obama. Mas nas palavras de Rubens Barbosa, o ex-embaixador brasileiro em Washington, a cúpula é um "não evento", pois foi inicialmente convocada por Bill Clinton em 1994 como um projeto americano para vitaminar a finada Alca (Área de Livre Comércio das Américas), contra a qual o Brasil resistiu. Não tem Alca, mas existe a Alba do Hugo Chávez e sempre há vitamina para uma cúpula a mais.

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