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Com respeito, a doutrina Obama e Aretha Franklin

11/03 - 05:43 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Já cansaram as analogias entre Barack Obama e este ou aquele presidente (Lincoln, Roosevelt, Kennedy, etc). Assim, chama a atenção quando Gideon Rachman, no jornal "Financial Times", pega outro tom para fazer analogia. Ele diz que em política externa, o presidente americáno é adepto da doutrina Aretha Franklin. Como assim?  A rainha do soul cantou na posse de Obama no remoto 20 de janeiro passado, mas o ponto aqui da analogia é que quando o presidente era garoto de calça curta, há mais de 40 anos, Aretha Franklin liderou as paradas de sucesso com "Respect". A música foi adotada como hino pelo movimento dos direitos civis e feministas.

Na analogia de Rachman, Obama está tratando o mundo com respeito. Com os muçulmanos, ele promete usar a "linguagem do respeito". Para os iranianos que avançam com seu programa nuclear, ele lembra que a "civilização persa é uma grande civilização". Para os chineses, que desrespeitam os direitos humanos, ele deixa para lá. Obama precisa respeitar o papel da China para colocar ordem na economia mundial. Com os russos, muitos sensíveis para não serem tratados como potência de segunda classe , ele se preocupa em não esnobar. Com Lula, vamos ver na reunião do próximo sábado, em Washington.

Existe algo salutar nesta sensibilidade de Obama. Países ou culturas tratadas de forma humilhante, podem reagir perigosamente. Existe este componente multicultural em Obama, mas ele está também resgatando tradições da política externa americana. Obama retoma um necessário realismo, abandonando o idealismo arrogante e aloprado da era Bush de reformar o mundo à la americana com ferro e fogo.

Apesar da história de Obama, o agente da esperança, visto por muitos como um Messias, ele não atua na política como um missionário. Este fervor religioso era mais consistente com Bush. Obama está longe de ser um aventureiro romântico. Alias, mesmo no final do seu governo, Bush tomou uma ducha de realidade. Curiosamente, o componente moral em política externa hoje é mais forte na direita americana (os neoconservadores queriam reabilitar o mundo a toque de caixa). A esquerda está mais fria e paciente, depois dos excessos em política externa da era Bush.

O realismo de Obama, com todo o respeito, em alguns momentos é simplesmente chocante  Está aí a disposição do presidente de diferenciar entre o Talibã terrível e o Talibã menos terrível. A idéia é de que em algum momento será possível negociar com alguns setores deste movimento  rebelde e obscurantista no Afeganistão. Os americanos e seus aliados europeus (e canadenses) estão atolados naquelas bandas, numa crise mais do que nunca regional, hoje conhecida como Afpak, devido à encrenca cada vez mais grave no Paquistão.

De qualquer forma, o Talibã é um pavor, nas suas diversas modalidades. Portanto, há limites nesta disposição de respeitar os países e as culturas do jeito que elas são.  Como respeitar um movimento que desfigura com ácido o rosto de meninas que querem ir para a escola? Existe esta conversa de negociação com o Talibã do B (menos brutal), mas a primeira resposta do governo Obama no Afeganistão foi mandar mais tropas para o país.

Esta cartada militar tem boa chance de não surtir efeito, mas Obama não pode simplesmente deixar o Afeganistão para lá. Isto não é realismo. É cinismo. Tenho dito, com o todo o respeito. 

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