12/01 - 03:15 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK - Em um horizonte mais distante, a ofensiva israelense em Gaza tem também como alvo o Irã, como parte de um intrincado jogo geopolítico. O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, por exemplo, considera grupos radicais islâmicos como o palestino Hamas e o libanês Hezbollah como irritações estratégicas. O foco central é o Irã, que ambiciona a hegemonia regional e ameaça com seus propósitos nucleares. Tais aspirações levaram Israel e um punhado de regimes árabes conservadores (Egito, Jordânia e Arábia Saudita) a esboçarem uma aliança de conveniência contra estas ambições, com a benção americana.
Nesta tabuleiro explosivo, os palestinos como de hábito são peões de manobra. É verdade que o Hamas não é um mero instrumento do Irã, assim como Israel não deve ser visto como cliente dos EUA (ou vice-versa). Para ilustrar este cenário basta ver as informações na edição de domingo do "New York Times" de que o governo Bush negou a Israel bombas de penetração profunda e permiissão para sobrevoar o Iraque para eventualmente bombardear instalações nucleares iranianas. Israel e Hamas não cumprem ordens de ninguém. São responsáveis por suas ações, embora no geral estejam afinados com outros (e poderosos) atores envolvidos nas confusões regionais.
Obviamente, com Israel mergulhado na crise de Gaza, o regime xiita em Teerã está satisfeito com o rumo dos acontecimentos. Em primeiro lugar, a aliança de conveniência de Israel com os regimes conservadores árabes pode sofrer um golpe. A um custo humano impressioinante, Israel pode no final das contas até conseguir dar uma lição no Hamas, mas países árabes conservadores foram forçados a se juntar ao coro de condenação de Israel. Isto aconteceria de qualquer forma, mas se tornou mais vigoroso e o grau de reação popular ao que está acontecendo em Gaza pode conter a aproximação com Israel. E nada mau que por uns tempos o mundo esqueça que não é apenas Israel, mas também o Irã que não dá bola para resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Com habilidade e infâmia, o Irã (que vale lembrar não é árabe) soube manejar seus interesses na questão palestina. O país se tornou mais estridente como defensor da causa palestina com o discurso do presidente Mahmoud Ahmadinejad negando o Holocausto na Segunda Guerra Mundial e a ladainha para varrer Israel do mapa. No mundo árabe, Teerã sinaliza para a população que os inimigos são os regimes de plantão
O conflito em Gaza não poderia acontecer em melhor momento para o regime xiita. Ele está perdendo capital estratégico com a baixa dos preços do petróleo e setores reformistas estimavam que tinham um pouco mais de margem de manobra para denunciar a incompetência econômica do governo Ahamadinejad. Mas o grande debate por estes dias em Teerã é sobre a tragédia palestina.
Vale repetir que Israel age por conta própria, mas ao defender seus próprios interesses atacando brutalmente o Hamas, de certa maneira estendeu o conflito ao Irã, fazendo o que o governo Bush apenas contemplara. Em termos estratégicos, é do interesse do governo eleito de Barack Obama que Israel tenha o maior sucesso em Gaza para assim possivelmente negociar em melhores condições com o Irã.
No domingo, em entrevista, Obama insistiu que o Irã é um país perigoso devido às suas ambições nucleares e exporta terrorismo. Ainda assim, o presidente-eleito falou em "respeito" e promete uma nova abordagem com o regime xiita. Isto, porém, será inviável se os aliados americanos no Oriente Médio (Israel e os regimes conservadores) saírem enfraquecidos da crise de Gaza.
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