09/01 - 04:36 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Afinal qual é o objetivo de Israel na sua guerra contra o Hamas? Restabelecer uma política de dissuasão, acenando com mais destruição caso o adversário continue a lançar foguetes é uma estratégia urgente, mas não de longa alcance. O inimigo se mostra disposto a absorver imensos sacrifícios, o que infelizmente se estende à população civil de Gaza.
Este conceito militar de dissuasão é insuficiente com um inimigo não convencional. Gideon Lichfield, ex- correspondente da revista "The Economist" em Jerusalém, escreveu no "New York Times" que a política de dissuasão de Israel deve ser mais pragmática, começando com uma significativa melhoria das condições de vida em Gaza, o que contribuiria para deter o Hamas, pois um cenário econômico mais estável faria a organização pensar duas vezes antes de recorrer à violência para não perder apoio popular. Um calma temporária já seria um grande avanço.
Mas tal pragmatismo pode ser efetivo apenas a curto prazo, pois não leva em conta legítimas aspirações políticas da população. Lichefield sugere que a longo prazo Israel precisará aceitar que o Hamas não é um movimento marginal (embora hoje atue como delinquente) que possa ser desenraizado e destruído, na medida em que é parte vital da sociedade palestina.
Não é uma opção fácil e talvez nem viável, pois o Hamas pontifica a destruição de Israel, mas mesmo setores do establishment de segurança nacional em Israel argumentam que um trégua que persista por décadas quem sabe altere a maneira de pensar e agir do Hamas.
Divagar é preciso sobre a futilidade de uma lógica puramente militar e defensiva. Sim, apesar da ladainha daqueles que acham que o país tem propósitos genocidas (na jogada rasteira de equiparar o sionismo ao nazismo), a lógica de Israel é defensiva, embora truculenta e com consequência medonhas, como agora em Gaza. Mas viver em segurança significa assumir riscos como quando Menachem Begin assinou o tratado de paz com Anuar Sadat em 1979 ou Yitzhak Rabin abandonou a relutância e apertou a mão de Yasser Arafat em 1993. Claro que na ousadia houve mão dupla.
A não ser que se viva em estado de negação (negando o direito de existência de Israel ou das legítimas aspirações palestinas), os contornos de uma solução estão aí: dois Estados coexistindo (o palestino deve ser viável), Jerusalém como capital de dois países, aceitação pelos palestinos que os refugiados não poderão retornar à terra de origem e desmantelamento das colônias judaicas em território palestino.
Vale repetir o grande escritor israelense Amos Oz: é conflito entre os dois certos. O resto, mais do que destruição, é autodestruição.

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