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O irrealismo do Hamas na realidade de Gaza

08/01 - 00:13 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Afinal, o que quer o Hamas na sua guerra assimétrica contra Israel? Um dos objetivos estratégicos parece ser se consolidar como o principal interlocutor de Israel (na guerra ou eventualmente na negociação). O conflito em Gaza é histórico, pois, pela primeira vez na guerra contra Israel, os palestinos não são liderados por Yasser Arafat e o Fatah, hoje chefiado por Mahmoud Abbas, postado na Cisjordânia e que, ao contrário do Hamas, busca um modus vivendi com o inimigo.

 

Em Gaza, o Hamas primeiro se firmou ao vencer eleições em 2006 (em um voto em parte de protesto à incompetência e corrupção do Fatah) e no ano seguinte cimentou seu poder na marra em um golpe que alijou o grupo palestino rival. Cercado e alvo do bloqueio de Israel, o favelão de Gaza se tornou o Hamastão. Com o bloqueio, de fato, é difícil dar um exemplo de boa governança e o Hamas de qualquer forma prefere administrar o flagelo, convocando os palestinos para a resistência permanente contra Israel e rotulando de colaboracionismo a moderação do Fatah.

Daniele Archibugi, professsora da Universidade de Londres, observa que a desesperança em Gaza, agora transformada em puro tormento com a guerra implacável de Israel, reforça o modus operandi do Hamas. O grupo é especialista nos slogans estridentes, mas se recusa a oferecer uma solução política no conflito com Israel. Existe um imenso fosso entre aspirações e realidade. O Hamas nega o direito de existência do Estado de Israel (ao contrário da Autoridade Palestina sediada na Cisjordânia), mas carece dos meios militares para erradicar o inimigo.

O Hamas, de fato, não é uma ameaça existencial a Israel. Trata-se mais de um grupo deliquente capaz de provocar mortes e danos com seus foguetes lançados contra cidades israelenses. Já houve impacto maior com os atentados suicidas, por ora suspensos.

Quando a precária trégua com Israel não foi renovada em 18 de dezembro e foguetes voltaram a ser lançados, o Hamas deu a justificativa para Israel investir com ferro e fogo. A intensidade da operação israelense e a tragédia humana em Gaza serviram para ofuscar o caráter do Hamas: um grupo repulsivo com poucos amigos no mundo. De certa forma, muitos governos árabes discretamente querem que Israel faça o trabalho sujo de debilitar ou erradicar o Hamas.

Em meio à indignação em muitas partes do mundo com as ações de Israel, não se pode esquecer que o Hamas agiu de forma irresponsável ao detonar a escalada do conflito, que é incapaz de manter. Ainda assim é possível ver o objetivo estratégico do Hamas no nevoeiro desta guerra assimétrica: tentar provar aos palestinos e ao mundo árabe em geral que nada de bom pode acontecer em negociações com Israel. E assim como o inimigo israelense, a tragédia humana em Gaza é um preço que o Hamas está disposto a pagar para alcançar seus objetivos e apregoar vitória.

 





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