07/01 - 09:26 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK - É difícil ver a luz no fim do túnel em Gaza. Na crônica da tragédia anunciada, o preço pago pela população civil é cada vez mais penoso, como o ataque israelense que alvejou uma escola da ONU na terça-feira, que deixou um saldo de dezenas de mortos. A vida é assim para o Hamas. Para uma organização que se exulta na cultura da morte, as vítimas são mártires. O sofrimento deve ser maximizado, como parte da guerra de propaganda e do desespero na luta contra um inimigo muito mais poderoso.
Israel não tem propósitos genocidas na operação militar e é do seu interesse minimizar as baixas civis (mais mortes são, entre outras coisas, um desastre de relações públicas e munição para a censura internacional), mas trata estas vítimas basicamente como dano colateral, coisas da guerra.
É impossível travar uma "guerra limpa" no caldeirão de Gaza e Israel mais uma vez subestimou o custo. O preço da invasão israelense foi o agravamento da crise humanitária, que já era dramática no contexto do bloqueio imposto devido ao domínio do Hamas em Gaza. Havia até o cálculo (equivocado) de Israel de que a população iria se insurgir contra o Hamas. A organização inclusive pediu o ataque implacável com suas provocações e o cálculo de que tem a ganhar mesmo que perca a guerra.
Aliás, a estimativa do Hamas é de que quanto mais durar o conflito mais difícil será para Israel enfraquecer e isolar o grupo. Uma reocupação em larga escala do território, abandonado há três anos, não está nos cálculos de Israel. E não existe uma força alternativa, palestina ou internacional, que possa reconstruir Gaza, quando a guerra for suspensa. As opções parecem ser entre o Hamas e o caos
O Hamas é repulsivo, mas é preciso reconhecer sua legitimidade. O grupo tem raízes profundas na sociedade palestina (não só em Gaza, mas na Cisjordânia). Seus militantes estão dispostos a realizar atentados suicidas, mas também cuidam de orfanatos. Mesmo que o grupo sofra um golpe devastador na sua vertente terrorista e de resistência militar, manterá um papel social e religioso.
E aqui está um problema fundamental no cenário palestino. Os líderes do Hamas têm capacidade de mobilizar a opinião pública palestina, mas não têm interesse em costurar a paz com Israel. Já o presidente palestino, Mahmoud Abbas, que controla a Cisjordânia, tem interesse na paz com Israel, mas está desacreditado junto ao seu povo.
Não existe clima neste momento para grandes estratégias diplomáticas na crise. Um cessar-fogo imediato claro que é vital para esta população civil que está sofrendo em Gaza e a tragédia na escola talvez traga uma pausa antes que os israelenses gostariam (nesta quarta-feira inclusive houve a decisão de suspender os bombardeios por três horas diárias). De qualquer forma, uma trégua mais abrangente deve levar em conta as preocupações de segurança de Israel. Muita gente minimiza o custo humano para Israel devido a um contraste estarrecedor nas estatísticas. Em pouco mais de dez dias de guerra, para cada israelense morto, morreram mais de 60 palestinos (de acordo com estimativas a ONU, civis representam entre 25% e 50% das baixas, num total que já superou 600 pessoas).
Não morrem mais israelenses nos ataques com foguetes porque o Hamas não consegue matá-los e os israelenses não medem esforços nas medidas defensivas. Para Israel, civis palestinos mortos são danos colaterais na guerra contra uma organização terrorista. Para o Hamas, não existe diferença entre miilitares e civis. O Estado de Israel é o alvo.

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