05/01 - 05:19 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- No lance fatalista, as tropas israelenses entraram em Gaza, em uma escalada da guerra contra o Hamas. Israel diz que aprendeu as lições de sua guerra contra o Hezbollah, no Líbano, em 2006. De acordo com as autoridades israelenses, desta vez não haverá um atoleiro, o poder de dissuasão será restabelecido e o objetivo imediato da operação militar, que é reduzir o lançamento de foguetes do Hamas contra Israel, será cumprido.
São proposições relativamente modestas, mas ainda assim arriscadas. De novo, insisto na legitimidade das ações israelenses. Existe o direito de autodefesa, embora o preço para inocentes em Gaza seja atroz. E conferir legitimidade não significa validar a eficácia da operação militar. Daí a noção do fatalismo. Sempre será mais difícil para Israel do que para o Hamas assumir uma vitória. Como no Líbano, em 2006, percepções são implacáveis. O Hamas poderá assumir vitória com sua mera sobreviência ou a simples capacidade de seguir lançando seus foguetes.
Por sua condição de fanático movimento de resistência (o que não remove o seu status terrorista e o seu caráter repulsivo de querer erradicar o Estado de Israel), o Hamas pode absorver golpes e sacrifícios (estendidos, infelizmente, à população civil em Gaza). O mesmo não acontece com Israel. Quanto mais durar o conflito (e a tragédia humana), melhor para o Hamas e sua cultura de martírio e necessidade de travar a guerra assimétrica contra um inimigo incrivelmente mais poderoso.
A sociedade israelense nunca terá a mesma paciência e capacidade de sacrifício, em especial porque a a sobrevivência nacional não está em jogo. Esta sociedade não vai expressar muito tolerância com baixas dos soldados envolvidos na operação em Gaza e se comporta com um certo cinismo em relação à classe política que convocou o país à luta. Existe um escancarado calendário eleitoral (10 de fevereiro) e, como George W. Bush, o primeiro-ministro Ehud Olmert tenta pateticamente preservar uma réstia de reputação.
No mundo ideal, seria ótimo o esmagamento do Hamas. E eu não sossego no meu horror ao ver o deslumbramento de alguns setores da esquerda com este movimento, que tem muito mais os contornos de fascismo islâmico, embora reconheça que tenha florescido devido à incompetência e corrupção de grupos seculares como o Fatah e à erva daninha que é a longa ocupação israelense dos territórios palestinos.
A meta de remover o Hamas, porém, parece inatingíve a curto prazol. E é fantasiosa a noção israelense de que as massas em Gaza irão se insurgir contra o Hamas, responsabilizando a organização e não Israel pelo cenário dantesco. Ademais, é preciso tomar nota das advertências das desmoralizadas lideranças moderadas palestinas de que o conflito poderá conferir ainda mais legitimidade ao Hamas.
No final das contas, a operação em curso em Gaza talvez seja mais bem sucedida do que a no Líbano em 2006. Apesar de deslizes, Israel é um país lendário por suas táticas fulminantes de guerra. O que falta realmente é uma estratégia para a paz. Negociar com o Hamas é uma perspectiva desoladora, mas uma resoluta e coerente estratégia de paz que leve à criação de um Estado palestino viável, baseada na retirada de quase todos os territórios e o fim da expansão das colônias judaicas, poderá, junto com necessárias operações militares, enfraquecer os radicais islâmicos e dar credibilidade aos impotentes moderados.
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