02/01 - 01:37 , atualizada às 10:31 02/01 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Em Gaza, trava-se uma guerra assimétrica. Não se trata apenas do tipo de arsenal usado pelos dois lados (mortíferos jatos F-16 por Israel e foguetes caseiros e outros um pouco mais sofisticados pelo Hamas). Há outras assimetrias: Israel quer, a longo prazo, dizimar o Hamas, uma organização terrorista, enquanto o Hamas quer dizimar o legítimo Estado de Israel. Sua carta constitucional também prega colocar cada metro da Palestina sob jugo islâmico
Para os israelenses, a guerra em Gaza sempre será inglória, pois o alvo dos seus ataques é um buraco densamente populado, controlado por um grupo que não hesita em usar escudos humanos e é movido por uma crença de martírio, que era encarnada por um dos seus líderes, Nizar Rayyan, morto em um ataque aéreo israelense na quinta-feira junto com suas quatro mulheres e nove dos seus filhos. O assalto de Israel em geral será visto no exterior como desproporcional, apesar dos cuidados cirúrgicos e da plena consciência do desgaste internacional devido ao desafortunado balanço de vítimas inocentes.
São tantas assimetrias: o Hamas tem a vantagem de não precisar pagar o preço político por suas baixas, com militantes dispostos ao sacrifício. Já Israel não apenas paga o preço em sua imagem internacional, mas erros de cálculo e mortes de seus soldados derrubam seus frágeis e democráticos governos.
No cálculo israelense destes ataques iniciados no sábado passado, há fatores eleitorais (a votação para a escolha de um novo primeiro-ministro será em 10 de fevereiro) e a necessidade de revitalizar o poder de dissuasão enfraquecido na guerra do Libano em 2006, mas basicamente se trata de uma reação fatalista às provocações do Hamas, com a meta de deter o lançamento de foguetes.
Neste começo de 2009, Gaza é um território ocupado por uma espiral de violência. Existe ainda um estado de ambiguidade. A destruição total do Hamas é inviável e invadir a região seria uma armadilha para Israel. Já o Hamas, incapaz de aceitar a realidade que é o Estado de Israel, não tem força para concretizar suas ameaças apocalípticas.
Israel tinha o direito de atacar, pois o Hamas unilateralmente anunciou o fim do cessar-fogo de seis meses. Mas como lembra o historiador israelense Benny Morris, o ataque não resolve o problema básico de uma faixa de Gaza habitada por 1,5 milhão de pessoas empobrecidas e desesperadas, em condições agravadas pelo cerco de Israel e pelo controle de um regime fanático. O dilema para Israel é que não pode tentar criar um modus vivendi com uma parcela palestina (Cisjordânia e o presidente Mahmoud Abbas) e travar a guerra contra a outra parcela (Gaza e Hamas). Mas como se safar? Abbas é fraco e o Hamas tem força suficiente para subsistir.
Nos próximos dias ou semanas é provável que seja renovada uma trégua temporária em Gaza. Este é o melhor que pode se esperar até que o Hamas se recupere e volte a lançar seus foguetes contra Israel, gerando uma nova espiral de violência.
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