09/12 - 03:26 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Quando a situação aperta, os suspeitos militares paquistaneses prendem e matam alguns suspeitos habituais. Na segunda-feira, foi o anúncio sobre o assalto contra um campo de treinamento de extremistas islâmicos do grupo Lashkar e-Taiba, nas cercanias de Muzaffarabad, a capital da parte paquistanesa da Cachemira, a região nos Himalaias que é foco de disputa com a Índia. O grupo é acusado pela Índia e EUA de vínculos com os terroristas que realizaram os ataques em Mumbai há duas semanas. Foi o preso o líder operacional da organização, suspeito de arquitetar os atentados, que deixaram mais de 170 mortos.
Os militares paquistaneses esperam assim acalmar um pouco os indianos, que até agora se comportaram com relativa moderação nesta crise. Uma escalada é sempre um cenário aterrador em uma parte do mundo que envolve dois rivais nucleares: um Estado democrático, mas turbulento, como a Índia, e o Estado fallido do Paquistão. Querem mais: ali na região temos o Afeganistão, o Talibã e a rede Al Qaeda.
A situação no sul da Ásia, portanto, é complicada e volátil. Mas os caminhos tortuosos levam claramente para Rawalpindi, a cidade que serve de quartel-general das Forças Armadas paquistanesas. Os militares e os serviços de inteligência há décadas patrocinam grupos como o Lashkar-e-Taiba e o Talibã. É uma história sangrenta e criminosa, mas representa uma estratégia de custo baixo para a comunidade militar do Paquistão para "sangrar" a Ïndia e dar as cartas no Afeganistão.
Esta duplicidade foi tolerada pelos americanos depois dos atentados do 11 de setembro, mas existe menos tolerância agora, assim como mais preocupação diante do quadro de desintegração do Paquistão e o alastramento das atividades terroristas. Os militares paquistaneses, com ajuda financeira saudita, geraram monstros e quando isto acontece nem sempre é posssível controlá-los.
Existe um governo civil presidido por Asif Ali Zardari (viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, vítima do terror islâmico há um ano quando concorria novamente ao cargo), com um comportamento oscilante, que reflete sua fragilidade. Zardari acena com cooperação nas investigações feitas pelos indianos sobre os atentados em Mumbai em alguns momentos e, em outros, parece ser um refém do "sistema" militar e de inteligência, um Estado dentro do Estado, que abocanha 25% do orçamento de um país dilapilado e que hoje precisa do socorro do FMI.
O dilema é como cortar o mal pela raiz. Ataques externos contra os campos terroristas no Paquistão (empreendidos por indianos e americanos) podem inflamar as paixões nacionalistas e desviar o foco das forças governamentais na luta antiterrorista na fronteira com o Afeganistão. Os indianos não parecem interessados em enfraquecer ainda mais Zardari. Mas deixar a solução do problema na mão de um frágil governo civil tampouco é promissor.
A encruzilhada é perigosa e, ironicamente, o caminho a ser seguido é óbvio. porém, inatingível a curto prazo. O Paquistão só tem a ganhar com a modernização, neutralização do extremismo islâmico e investimento em boas relações com a Índia, baseadas em comércio e estabilidade geopolítica. Mais fácil pegar alguns suspeitos habituais por uns tempos.
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