04/12 - 05:34 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK - Dezenas de milhares de residentes de Mumbai saíram as ruas na quarta-feira para denunciar os atentados terroristas da semana passada, prestar solidariedade às vítimas e também para protestar contra o governo indiano pelo fiasco de seus serviços de segurança na prevenção e resposta aos ataques. Toda solidariedade às vítimas em Mumbai, esta cidade aberta, mas também vulnerável. É uma pena que na manifestação havia gente muito beligerante, pedindo retaliações aos gritos "morte ao Paquistão".
A cidade foi atacada e residentes com medo do terror se mostram capazes de desafiar o terrorismo, assim como o governo. É assim que é preciso proceder. Em situações de calamidade, governos têm a propensão de manipular o medo. Aconteceu nos EUA na sequência dos atentados do 11 de setembro.
Não se trata de minimizar o perigo ou rechaçar a necessidade de uma resposta vigorosa (e eficiente) à ameaça terrorista, mas de denunciar os excessos do governo na hora do sufoco. Claro que nunca é fácil encontrar um equilíbrio entre liberdades civis e segurança. O governo Bush usou os atentados como um pretexto para expandir os poderes do Executivo e intimidar a oposição desfraldando a bandeira do patriotismo.
Um documentário em cartaz em Nova York, "The End of America" (adaptado do livro de Naomi Wolf) compara as ações do governo Bush aos lances que precederam o establecimento de ditaduras no século 20, como na Alemanha, Itália e Chile. Há exagero aqui. A manipulação do medo pelo governo não pode ser combatida com histerismo de que o Estado seja nosso inimigo. Uma sociedade saudável corrige seus excessos e o governo Obama irá se desfazer de vários detritos da era Bush, como a prisão de Guantánamo e o consentimento institucional da tortura.
No caso da Índia, que apesar de todas as males é uma democracia, uma reação automática das autoridades foi tentar canalizar a indignação popular contra o Paquistão, onde provavelmente houve apoio logístico e treinamento para os atentados da semana passada. Ë verdade que até agora as autoridades indianas calibraram esta resposta. Afinal das contas, um objetivo estratégico dos terroristas era justamente uma escalada das tensões entre os dois vizinhos nucleares.
As manifestações populares em Mumbai deveriam funcionar como um freio à escalada de tensões. Os manifestantes querem que o governo assuma suas próprias responsabilidades, não apenas responsabilizando o vizinho. O Paquistão é um país frágil e dividido. É vítima de terror (basta ver o caso do presidente Zardari, viúvo de Benazir Bhutto, morta em atentado há um ano quando estava em campanha eleitoral), mas também cúmplice pela incapacidade de controlar seus próprios extremistas islâmicos e mentores nos serviços de inteligência.
Esta perigosa crise no subcontinente indiano poderia servir como uma oportunidade para que a Índia forje uma aliança estratégica antiterror e pró-estabilidade na região com os setores da sociedade paquistanesa que não querem ser manipulados pelo medo.
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