03/12 - 03:39 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Barack Obama costuma ser aplaudido quando anuncia que uma retirada responsável dos EUA do Iraque permitirá que mais tropas e recursos sejam deslocados para o Afeganistão, um "front" mais próximo da noção de uma boa guerra. Para o presidente-eleito, o Afeganistão deve ser a principal frente de batalha na guerra contra o terrorismo. Afinal, o país foi invadido há pouco mais de sete anos pois servia de santuário para a rede Al Qaeda, responsável pelos atentados do 11 de setembro.
A dúvida é se mandar mais tropas é a missão correta. Obama e sua equipe parecem conhecer história um pouco mais do que o desmoralizado pessoal do governo Bush (tudo bem, o secretário de Defesa Robert Gates vai trocar de camisa e continuar em campo). Uma lição clássica da história é que estrangeiros não conseguem "pacificar" o Afeganistão. Ingleses e russos fracassaram.
Podemos até esquecer a história e dar uma rápida olhada nos desafios do presente. O Afeganistão é um terreno ainda mais ingrato do que o Iraque para uma efetiva e rápida operação militar. Sucesso pode exigir décadas, numa empreitada em que os aliados europeus dos EUA (ainda na fase de lua-de-mel com Obama) não demonstram entusiasmo. Em comparação ao Iraque, o governo e as Forças Armadas afegãs são uma piada. O Afeganistão é muito mais atrasado, precário e complexo do que o Iraque. Não tem petróleo. Seu grande produto de exportação é o ópio. Não existe paciência histórica nos EUA para uma longa permanência em um Estado falido.
Como diz o professor Andrew Bacevich, da Boston Univeristy, uma guerra no Afeganistão não pode ser vencida militarmente. Deve haver um acordo político, por mais imperfeito que seja. A situação acalmou um pouco no Iraque não tanto pelo reforço de tropas americanas, mas pela decisão de tribos sunitas de se insurgirem contra os transloucados da rede Al Qaeda. Os objetivos no Afeganistão talvez precisem ser mais modestos. Nada de ambicionar a construção de um Estado moderno e democrático. O professor Bacevich diz que a saída é oferecer incentivos (suborno) para líderes tribais e os chamados senhores da guerra (warlords) assegurarem que o Afeganistão não seja um santuário para o terrorismo jihadista.
Um efeito devastador até agora das operações militares no Afeganistão foi empurrrar radicais islâmicos para a fronteira com o Paquistão. A busca de estabilidade no Afeganistão desestabilizou ainda mais um país vizinho, que sem dúvida é muito mais importante no jogo geopolítico mundial. A questão é se o esforço para salvar o Afeganistão trará ainda mais danos regionais.
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