18/11 - 06:43 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Duas semanas depois de sua eleição, Barack Obama é prisioneiro de expectativas cada vez mais altas. Quando o presidente-eleito não é comparado a Franklin Roosevelt (pelos épicos desafios econômicos), o referencial é Abraham Lincoln. Não se trata, no caso de Lincoln, de liderar parte do país em uma guerra civil. Há é claro o componente histórico de alguém como Obama avançar a jornada de emancipação negra, tão associada a Lincoln, mas o referencial aqui é a astúcia do gigante americano do século 19 para atrair seus rivais para o governo.
Lincoln chamou os seus três principais oponentes na disputa republicana para a presidência em 1860 para o seu ministério. Eram homens que tinham atacado Lincoln por sua origem humilde e inexperiência e se sentiam humilhados pela derrota para um obscuro advogado de Illinois (Estado de Obama). Lincoln, no entanto, convenceu os três para assumirem as mais altas posições governamentais: Willliam Seward (secretário de Estado), Salmon Chase (secretario do Tesouro) e Edward Bates (Secretário de Justiça).
Obama já aliciou Joe Biden, um pequeno rival nas primárias, para ser o seu vice. A grande trama para Barack "no drama" Obama envolve ter Hillary Clinton como secretária de Estado. Por coincidência, William Seward, convocado para o cargo por Lincoln, assim como Hillary, era senador por Nova York. A lógica é que se trata de um convite sério para a senadora. Em caso contrário, poderia haver uma ruptura pessoal e no Partido Democrata. Voltando na história, Seward superou a pose e se converteu em aliado e amigo do presidente-gigante.
A dúvida no presente parece efetivamente girar (quem mais?) em torno de Bill Clinton. Resta saber se não haverá um conflito de interesses entre a chefe da diplomacia americana e o marido que arrecada dinheiro em todas as partes do mundo para suas atividades filantrópicas, biblioteca presidencial e para o próprio bolso com palestras. Uma história sempre comentada é se em 2005, o ex-presidente Clinton ajudou uma empresa canadense a conseguir concessões de mineração de urânio no Cazaquistão (a ditadura da Ásia Central que virou folclore graças ao filme Borat). Após o acordo, a fundação controlada pelo executivo canadense Frank Giustra deu 30 milhões de dólares para a fundação Clinton.
As histórias sobre a astúcia do estadista Lincoln estão no livro "Team of Rivals", da historiadora Doris Kearns Goodwin. Obama disse em uma entrevista que, além da Bíblia, o livro de Goodwin estará no Salão Oval da Casa Branca como fonte de inspiração e de sabedoria. Com Hillary Clinton a seu lado, Obama estaria mais perto de um "dream team"" em um momento tão difícil do jogo geoeconômico e geopolítico do império americano. A confirmação do nome de Hillary para o alto cargo frustraria pretendentes igualmente importantes e ambiciosos, que se aliaram a Obama quando a parada ainda não estava garantida para ele nas primárias.
A escolha de Hillary seria mais um exemplo da clássica trama de manter os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda. James Carville, o lendário marqueteiro (intimo do casal Clinton), veio com a seguinte pérola: nas primárias, você apunhala os inimigos; na transição para o poder, você apunhala os amigos.

Publicidade