17/11 - 05:11 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Podemos ir um pouco mais fundo para imaginar a mudança que significa no mundo islâmico e nas bandas do Oriente Médio a eleição de alguém chamado Barack Hussein Obama. Podemos especular o que se passa nas cavernas da Al-Qaeda, lá nos confins da fronteira Afeganistão-Paquistão. O novo inimigo é o herege Obama (descendente de muçulmanos pelo lado paterno). É o inimigo que confunde. Sempre melhor ter alguém mais previsível e maniqueísta como George W. Bush ou John McCain.
Mas vamos esquecer as cavernas e imaginar a confusão em mesquitas e madrassas, pois ambas são celeiros de recrutamento de jihadistas.
Funcionários da inteligência americana que monitoram sites extremistas têm dito aos jornais que existe no mínimo curiosidade sobre o presidente-eleito em círculos militantes ligados a grupos como Taleban, Hezbollah e Hamas.
Não se trata aqui de dar munição aos inimigos domésticos de Obama, para os quais o resultado de sua eleição será uma política externa americana mais maleável e ingênua. Pelo contrário: o governo Bush foi de grande valia ao radicalismo islâmico, com sua retórica esquentada na guerra contra o terror.
A pior coisa para o jihadismo é um governo americano que abafe a possiblidade de um choque de civilizações.
Existe uma urgência para o governo-eleito dos EUA lidar com a crise econômica. É uma ironia, pois o senso de urgência da candidatura de Obama (além de todo simbolismo de mudança racial, geracional, etc.) foi dado pelo Iraque e pelo desafio estratégico naquelas bandas do mundo. O compromisso de retirada das tropas americanas do Iraque foi em grande parte justificado por Obama pela necessidade de incrementar a luta contra o Taleban no Afeganistão e extirpar a rede Al-Qaeda.
Mas progressos no Afeganistão dependem de cooperação com os vizinhos Paquistão e Irã. Por outro lado, estes novos investimentos somente irão frutificar se houver estabilidade no Iraque governado por uma coalizão xiita com o apoio de Teerã. Esta estabilidade em Bagdá depende também de um nível de tranquilidade dos vizinhos sunitas, desconfiados das ambições geopoliticas e nucleares do regime xiita iraniano.
Como se vê, os problemas estão conectados e ainda nem mencionamos o desafio clássico do conflito entre Israel e os palestinos. Para Israel, o grande foco de preocupação é o Irã e seu programa nuclear. Não é à toa que havia inquietação em Israel na campanha eleitoral americana com a disposição de Obama de uma negociação com as autoridades de Teerã. Obama, que não é bobo, recallibrou esta mensagem e, mais importante, investiu o que pôde para deixar claro seu apoio inquebrantável a Israel. Tal empenho inclusive contribuiu para dissipar temores do eleitorado judaico e Obama, no final das contas, se saiu melhor até do que o derrotado democrata John Kerry em 2004.
E aqui está outra ironia. Inquietação maior existe em Teerã com a vitória de Obama. Os líderes iranianos há dois anos se dizem prontos para conversações diretas e incondicoinais com Washington sobre o seu programa nuclear. Mas soa apenas como figura de linguagem, pois pior do que péssimas relações com os americanos é a perspectiva de melhoria. Oposição ao "grande Satã" é pedra de toque da cultura política iraniana desde a revolução islâmica de 1979. As tais das negociações incondicionais com os americanos incluem as seguintes condições: retirada das tropas americanas do Iraque, respeito ao sistema teocrático iraniano e o fim das objeções ao programa nuclear.
A intransigência vai além do aloprado presidente Mahmoud Ahmadinejad. O próprio líder supremo, o aiatolá Khamenei, fez questão de baixar as expectativas sobre Obama, dizendo que as divergências do seu regime com os EUA estão profundamente incrustradas, indo além da mudança do partido governante em Washington.
Os ventos da mudança Obama talvez sejam muito fracos para criar uma tempestade política no Oriente Médio. Espero que a realidade mude esta avaliação.
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