10/11 - 02:07 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Barack Obama em parte deve sua vitória eleitoral há menos de uma semana à surpresa de outubro: o derretimento da economia global. É um teste dramático para qualquer presidente-eleito, com ou sem experiência. Para tornar o quadro ainda mais nebuloso, não sabemos que tipo de crise internacional pode desabar sobre Obama nos primeiros meses do seu governo.
Com seu pendor para gafes, o vice-presidente eleito Joe Biden disse durante a campanha que os inimigos dos EUA poderiam se atrever a testar Obama nos primeiros seis meses de sua presidência.
Existe uma lista de crises internacionais conhecidas diante do presidente eleito dos EUA, que de forma justificada está imerso nos problemas econômicos imediatos. Mas o próprio Obama lembrou em um momento emblemático de sua campanha que um presidente precisa dar conta simultaneamente de múltiplas tarefas e desafios. Estão aí as guerras no Iraque e Afeganistão, a petulância nuclear iraniana, o fantasma terrorista, a instabilidade no Paquistão e os grunhidos da Rússia que não conhece o seu devido lugar no contexto pós-Guerra Fria.
O mundo está saturado de problemas geopolíticos, agravados pela turbulência econômica. E crises, é claro, podem ser perfeitamente inesperadas e acontecerem no começo do mandato de um presidente. O noviço John Kennedy encarou a crise dos mísseis em Cuba e a possibilidade da hecatombe nuclear, Bill Clinton nunca imaginou que amargaria o fiasco da retirada dos fuzileiros navais da Somália, acuados por turbas armadas e o acidental George W. Bush, que prometia uma politica externa humilde, teve a presidência definida pelos atentados de 11 de setembro.
Supresas sociopolíticas podem vir da China, que teve as possibilidades de desaceleração econômica subestimadas na crise em curso. Terrível para o gigante emergente crescer 9% ao ano ao invés de 12%. Sofrem os chineses e sofremos todos nós quando um país menos voraz compra menos do exterior e gera menos do mínimo necessário de 24 milhões de novos empregos anualmente.
O potencial de crise é evidenciado pelo tamanho do plano de estímulos anunciado pelo governo chinês no domingo. O pacote de dois anos no valor de quase US$ 600 bilhões é direcionado para investimentos em infraestrutura, programas sociais e outras medidas de estímulo. A escala da resposta deixa claro como as perspectivas se deterioraram rapidamente, mas também como o país permanece bem posicionado para reagir aos desafios.
É um pacote colossal para um país como um PIB de US$ 3.5 trilhões. No caso americano, o Congresso aprovou um pacote inicial de resgate financeiro de US$ 700 bilhões, em uma economia de US$ 14 trilhões. O presidente chines Hu Jintao foi um dos primeiros contactados na semana passada por Obama após sua vitoria eleitoral.
O dirigente chinês estará em Washington no final desta semana para a reunião do G-20 e as indicações sao de que ele recebeu o triunfo de Obama como mais entusiasmado do que se esperava, diante da tradição de mais protecionismo comercial dos democratas. Mas Pequim antevê uma postura mais multilateralista do novo governo, pela filosofia politica de Obama e também em razão da urgência econômica.
Quem sabe uma surpresa dos primeiros meses do governo Obama seja um maior espírito de cooperação entre as duas maiores potências mundiais do século 21. Melhor nem projetar uma relação mais azeda.

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