04/11 - 03:49 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- É difícil não ser tomado por uma exuberância irracional nesta terça-feira, dia de eleição presidencial nos EUA. Os americanos têm, de fato, um encontro marcado com a história graças a este duelo épico entre Barack Obama e John McCain. Mas com um pouco de sobriedade vamos tentar detectar que tipo de mudança será implantada após um ciclo eleitoral em que, well, a palavra mudança foi usada e abusada por democratas e republicanos.
Está na cara que a vitória de Obama irá culminar anos de progressos raciais nos EUA. Preconceitos viverão e é ingenuidade falar de um país pós-racial, mas os americanos estão mais à vontade com o cenário de um negro como o líder nacional. Peço perdão se soar condescendente, mas foi maravilhoso acompanhar um negro se portar com tanta aura presidencial.
Atitudes raciais na população mudaram ao longo da campanha.
Nunca é demais repetir que quando Obama nasceu há 47 anos negros eram tratados como raça inferior nos EUA, impedidos de votar em muitos Estados, colocados no fundo do ônibus, proibidos de compartilhar o bebedouro público com brancos. Obama rompeu esteriótipos raciais e isto foi possível pois ele emergiu no momento histórico certo.
A ascensão de Obama exigiu mudanças demográficas, com novas gerações descoladas de rígidas identidades raciais e com velhas gerações dispostas ou forçadas a abandonar ou afrouxar preconceitos. Mas, de novo, é preciso dar mérito a Obama, pela habilidade e sensibilidade para se derreter no caldeirão racial e étnico americano. Aqui está um ponto essencial. Houve um avanço racial com Obama. Logo, raça será menos importante se ele vencer, como se espera.
A mudança demográfica é mais abrangente, o que tornou Obama um mensageiro ainda mais consistente com sua narrativa de filho de pai negro do Quênia, mãe branca do Kansas, nascido no Havaí e criado na Indonésia, O eleitorado americano é mais diversificado em termos étnicos e raciais, mais jovem e assim mais simpático aos democratas.
Nesta salada russa, não podemos esquecer a ascensão latina, com a minoria cada vez mais distanciada dos republicanos. Aqui, novamente, a proeza de Obama. Ele soube selar o pacto com este novo país, em particular os jovens, o que renderá dividendos políticos para ele e seu partido.
Os resultados da eleição desta terça-feira também confirmarão o alcance das mudanças no mapa politico do país, dividido entre o azul dos democratas e o vermelho dos republicanos. Um país mais urbanizado, mais diversificado e mais tolerante assusta os republicanos. Não é a toa que a mensagem da campanha, em particular veiculada pela candidata a vice Sarah Palin, foi de advertir que os republicanos representam a verdadeira e patriótica América, aquela localizada nas pequenas cidades e áreas rurais. Resta saber em termos concretos qual será a magnitude da ofensiva de Obama pelas áreas vermelhas, da "verdadeira América"'. Na metáfora das cores, o sucesso de Obama mostrará que o pais está mais roxo.
Bem, estamos em tempos cinzentos na economia. Com isto, ficam abafados os clamores mais conservadores de que o Estado é o problema, não a solução.
Mas resta saber exatamente a intensidade da atuação governamental em tempos de crise. Os republicanos desenham uma caricatura e dizem que o socialismo vem aí, com Barack Obama. Mas a mudança é mais sutil, menos caricatural. As pesquisas mostram que os americanos querem um governo mais competente, após o desastre da administração Bush no furacão Katrina, no Iraque e na economia. Talvez Obama tenha um perfil ideológico à esquerda dos eleitores, mas ele é aceitável por encarnar uma eficiência tecnocrática.
E aqui está a questão-chave. Eleito, Obama, sem dúvida, será o agente de mudanças históricas, mas não revolucionárias. Ele sintetiza o desejo de uma evolução nas relações raciais, sociais e no papel do governo.
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