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Crise será tentação histórica para novo presidente dos EUA

20/10 - 00:27 - Caio Blinder, de Nova York

Com a crise econômica nos EUA, o desemprego pode saltar até o final do ano dos atuais 6,1% para, quem sabe, 10%. Mesmo com menos oportunidades, alguns podem perguntar: como alguém sonha em ter o emprego de presidente e receber a herança maldita de George W. Bush? Claro que outros podem perguntar: por que não? Raras vezes, um político pode estar diante de tamanho desafio histórico. Bill Clinton, o antecessor de Bush, lamentou ter perdido sua chance. Afinal, não foi colocado à prova, pois seus oito anos de governos foram tempos de paz, prosperidade e escândalos à la Monica Lewinsky.

 

Que diferença. O vencedor das eleições de 4 de novembro assumirá o poder em 20 de janeiro na companhia da mais penosa situação econômica desde que Franklin Roosevelt prestou juramento em 1933 durante a Grande Depressão. Com o foco na economia às vezes se esquece o " resto: o novo presidente irá iniciar o seu governo em meio ao maior engajamento militar (Iraque e Afeganistão) desde a posse de Richard Nixon em 1969, durante a Guerra do Vietnã.

Nem vamos mencionar aqui as promessas irrealistas dos dois candidatos (surrealistas em alguns casos devido à enormidade da crise) ou os pesados pacotes de surpresa que podem estar tramando. Podemos adiantar que Obama quer mais estímulos governamentais, enquanto McCain defende mais cortes de impostos.

Em termos concretos, o jornal "USA Today" listou algumas tarefas: o próximo presidente precisará negociar uma nova estrutura regulatória para as instituições financeiras, lidar com a nacionalização parcial do sistema bancário e impedir que a recessão escorregue para uma depressão. Há ainda os desafios geopolíticos: como administrar a redução de tropas no Iraque sem sacrificar alguns ganhos táticos de segurança e, ao mesmo tempo, fazer os investimentos urgentes para conter o Talibã que ressurgiu no Afeganistão.

Vivemos em um mundo de gratificações e angústias instantâneas. Um referencial imediato para o novo presidente são os 100 primeiros dias do governo de Roosevelt em 1933 marcado por palavras magníficas ("a única coisa que nós temos que temer é o próprio medo") e ações dramáticas, como um feriado bancário, para conter o pânico. Mas foi uma longa, turbulenta e brutal jornada de seis ou sete anos para engatar a economia,com manobras desgastantes, erros e acertos. Para o próximo presidente, podemos especular que limpar os estragos pode tomar boa parte do primeiro mandato (se falhar, é claro, não haverá um segundo).

É preciso começar por algum lugar e, portanto, precisamos retornar ao referencial dos primeiros 100 dias. De imediato, será preciso restaurar o senso de confiança de uma população confusa, frustrada e furiosa com as instituições. Ademais, após uma campanha eleitoral intensa e negativa será fundamental cicatrizar as feridas e unificar o país. Se eleito, Obama poderá ser tragado por uma onda de altas expectativas e altas ansiedades. Para McCain, é mais simples: um Congresso com uma expansão da maioria democrata.

Na verdade, o período de 77 dias entre a eleição e a posse já promete ser frenético. O presidente-eleito nem poderá se dar ao luxo de celebrar e se recuperar de uma campanha extenuante. Não terá o mandato para o descanso. Pesquisas mostram que para 2/3 dos americanos a tarefa prioritária será estabilizar a economia. Nada fácil, mas a urgência será um motivador para o futuro presidente ser tentado a investir em gestos históricos.

Barack Obama e John McCain prenunciaram que não viveriam momentos banais na presidência quando lançaram as respectivas candidaturas no ano passado. Obama citou o legado de Abraham Lincoln e McCain se comparou a Teddy Roosevelt, um presidente que era primo distante daquele outro que, por circunstâncias históricas, agora é o referencial inevitável.





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