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Nos EUA de Barack Obama, o centro de hoje é esquerda

17/10 - 02:16 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Quem é o verdadeiro Barack Obama? A pergunta em tom de suspeita é marca registrada da campanha negativa e desesperada do republicano John McCain para semear dúvidas sobre o caráter do rival democrata, que, salvo surpresas, ou melhor dizendo, milagres, deverá vencer as eleições de 4 de novembro. O azar para McCain é que finalmente Obama se tornou mais familiar para os americanos, depois de uma exaustiva maratona presidencial que começou nas primárias. O povo gosta ou pelo menos se acostumou com a ideia de Obama na presidência.

 

O maior cabo eleitoral de Obama é a encrenca econômica, mas o candidato tem seus méritos, pois sempre esteve mais afinado do que McCain com as aflições nacionais. Em um debate sobre o terceiro e último debate presidencial na quarta feira à noite, o historiador Michael Beschloss disse na rede pública de televisão PBS que o desempenho de Obama nos três debates contra McCain foi fator-chave para a consolidação de sua vantagem. Talvez não tenha acontecido nada especialmente memorável (como uma grande tirada ou uma gafe fatal), mas a postura tranquila, em contraste ao jeito irritadiço de McCain, contou muito. O recruta parecia mais preparado para a guerra do que o velho soldado quando os americanos querem proteção do rojão econômico.

Um pais aflito está menos indeciso se aposta em Obama, superando obstáculos como inexperiência, nome exótico e mesmo raça. O historiador Bechloss traça paraelos com pretendentes como John Kennedy (1960), Jimmy Carter (1976) e Bill Clinton (1992). Estes três futuros presidentes não eram muito conhecidos do povo americano no começo e usaram os debates, um a um, para basicamente fazerem os cidadãos se sentirem mais à vontade com eles e a idéia que fossem presidentes. É verdade que dúvidas sobre Obama podem voltar nas últimas semanas de campanha e sua vantagem sobre McCain se estreitar e, num milagre, talvez até ocorrer a reversão.

No último debate, McCain voltou a insinuar que Obama tem uma agenda antiamericana devido à sua relação distante com o ex-terrorista Bill Ayers.

Obama lembrou que é próximo de Warren Buffett, um ícone do hoje alquebrado capitalismo americano.

Impressiona como nas últimas semanas, o centro político americano se fixou em torno de Obama. Uma bateria de pesquisas sugere que os ganhos do democrata foram especialmente expressivos entre brancos, particularmente homens, mas também entre moderados e independentes. Nos debates, nos comícios e nos comerciais de campanha, McCain e a companheira de chapa Sarah Palin pintam Obama como um esquerdista gastador. Mas ideologia conta menos com eleitores este ano do que temperamento. E com a encrenca, há mais suspeitas do conservadorismo do que do liberalismo. Existe também perplexidade, pois a república socialista dos EUA é comandada por George W.Bush e Henry Paulson.

A jogada furiosa de McCain inclusive é posar como um campeão do populismo de direita que irá varrer a corrupção e a ganância em Washington e Wall Street. Obama, de fato, agora pode ser menos reticente para posar como um político pós-ideológico e assumir sua crença no esquerdismo (liberalismo no jargão americano) do grande governo. O Estado hoje não é tanto um campeão, mas um último recurso depois que o fundamentalismo de livre mercado perdeu capital e credibilidade. Obama fatura com a massa falida.

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