06/10 - 00:02 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- A corrida eleitoral americana ainda não acabou, mas a menos de um mês da votação estamos vendo provavelmente os últimos espasmos da campanha do republicano John McCain, com um assalto desesperado contra Barack Obama.
Com os furacões econômicos, o pêndulo foi para o lado democrata e, em meio às aflições nacionais, a eleição se tornou um referendo sobre qual dos candidatos está melhor equipado para administrar a crise: o cerebral Obama ou o impulsivo McCain. A última pilha de pesquisas mostrou o eleitorado abraçando a calma do supostamente imaturo candidato democrata e mais determinado do que nunca para punir os republicanos de George W. Bush.
Logo, o gesto desesperado de McCain é reinvestir no tema do caráter, ou melhor dizendo, na falta de caráter do candidato democrata. O negócio é se distanciar dos grandes temas econômicos, favoráveis aos democratas, e valorizar suspeitas pessoais sobra Obama com suas ligações sinistras com gente de um submundo de Chicago, sua cidade e base eleitoral.
Com uma campanha negativa desfechada no sábado por Sarah Palin, a companheira de chapa de McCain, o tom é perguntar: será que Obama é de confiança? A tática é levantar suspeitas, exagerar e distorcer as conexões do candidato democrata com o escroque Tony Resko, o ex-terrorista Bill Ayers e o incendiário pastor negro Jeremiah Wright.
Obviamente, Obama subiu na política com alguns compromissos dúbios e precisou se desfazer de bagagem ao longo do caminho, com destaque para o pastor Wright. Ele também não é um mero cavaleiro alado da esperança e alguns de seus recentes comerciais de campanha são movidos a medo, para assustar o eleitorado sobre a tragédia que seria um governo McCain. Em um ataque preventivo, já estamos vendo uma vigorosa ofensiva democrata para rotular McCain como um candidato "errático" durante uma crise monstruosa e alertando os eleitores sobre o que está em jogo em novembro.
Para McCain, está basicamente em jogo a sobrevivência de sua campanha. Ele se reinventa a todo momento. Ë capaz de na mesma frase falar nobremente na necessidade de espírito bipartidário e de responsabilizar Obama por falta de liderança na crise econômica. Seus passos nas últimas semanas são visivelmente táticos e confusos. McCain esssencialmente está na contra-mão da história.
Obama é o contrário. Está na mão correta. Num alentado ensaio na edição desta semana da revista "Newsweek", Francis Fukuyama escreve que uma era histórica de conservadorismo que teve Ronald Reagan como porta-estandarte (de apologia do livre mercado e de desprezo pelo papel ativo do governo) está terminando com atraso. Em parte, o atraso foi devido à incapacidade do Partido Democrata de se apresentar com candidatos e argumentos convincentes. Outro fator tem sido a relutância de uma parcela do eleitorado para votar de acordo com seus interesses econômicos, preferindo tomar decisões com base em critérios como religião, patriotismo, valores familiares e esta suspeita de que o candidato democrata "não é como a gente".
Em meio às aflições econômicas, as dúvidas sobre Obama estão se dissipando. Este é o caráter da eleição.

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