25/09 - 07:31 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- As surpresas de John McCain não surpreendem. Na hora mais dramática, quando o candidato republicano está no sufoco, ele apronta um gesto teatral.
McCain veio com esta agora de suspender sua campanha e pedir o adiamento do primeiro debate presidencial na sexta-feira com o oponente democrata Barack Obama em nome do interesse comum e da urgência de um acordo patriótico por um pacote de recuperação da economia e de restauração da confiança no sistema financeiro. Claro que suspender a campanha é um gesto de campanha.
Esta nova e furiosa investida de McCain colocou Obama diante de um dilema: recusar o chamado patriótico do republicano pode parecer, digamos, antipatriótico. Em contrapartida, segui-lo significa aceitar o espírito de liderança de McCain. Os seguidores do candidato não têm dúvida que mais uma vez ele mostrou ser o genuíno líder, capaz de ousadias, como na escolha de Sarah Palin como candidata a vice.
Mas, de novo, são gestos marcados por oportunismo e um tom de desespero.
Para McCain, é importante sempre retomar o controle da narrativa e distrair as atenções. Mais importante do que soluções para os problemas é mostrar esta capacidade de liderança. O gesto aconteceu quando as pesquisas começaram a mostrar uma recuperação de Obama (e o fim do deslumbramento com Sarah Palin), visto como o candidato mais equipado para lidar com a economia nestes tempos de uma encrenca financeira que pode levar os EUA e o resto do mundo para o buraco.
McCain diz que seu gesto nobre de suspender a campanha e querer adiar o primeiro debate contribui para um diálogo nacional sobre a crise econômica, mas as primeiras reações mostram que a jogada pode, isto sim, aprofundar acirrar as divisões sobre o pacote governamental de resgate de US$ 700 bilhões do sistema financeiro, ao invés de aparar as arestas.
Democratas apontam o cinismo de McCain de desviar as atenções quando a pesquisa Washington Post/ABC mostra Obama com uma vantagem de nove pontos. É um número mais generoso que as demais pesquisas da semana. No contexto desta jogada de McCain é interessante ver a análise qualitativa da pesquisa Wall Street Journal/NBC. Nesta pesquisa, Obama tem uma vantagem de apenas dois pontos sobre McCain.
A razão que faz do republicano um candidato tão competitivo, apesar das condições adversas para o seu partido, é sua capacidade de empacotar uma mensagem populista passional, em particular num momento de resistência e ceticismo sobre esta intervenção governamental para socorrer Wall Street.
Há uma semana, McCain tem martelado que Washington e Wall Street são cenários de ganância, corrupção e incompetência. De novo, ele se distancia do governo presidido por alguém do seu partido e à margem de um sistema.
Ironicamente, Obama, com seu slogan de mudança, tenta entrar no sistema posando de presidenciável, enquanto McCain novamente se comporta como um insurgente enraivecido, temperamental e imprevisível. Tudo de bom para sobreviver na campanha, não para presidir um país assustado. McCain é do contra, não a favor.

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