21/09 - 21:51 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK - Aqui e ali pipocam dúvidas e ceticismo sobre o assombroso pacote do governo americano de resgate dos ativos hipotecários podres do sistema financeiro (custo de US$ 700 bilhões) para conter uma medonha crise global. Há objeções sobre o pedido de carta branca e também lembranças da postura imperial do governo Bush após os atentados do 11 de setembro que fez com que o Congresso aprovasse a toque de caixa o Ato Patriótico. Como disse o economista Nouriel Roubini, da New York University, um dos primeiros a antever a crise, há uma pretensão monárquica no projeto de salvação, mas ele reconhece que o intervencionismo estatal é necessário. E congressistas, em particular democratas, levantam questões, mas estão conscientes que o preço da inação é intolerável.
Na frase simples do venerável professor e Prêmio Nobel de Economia Paul Samuelson, o "capitalismo puro não pode evitar alguns ciclos econômicos e tampouco pode contar que os mercados sozinhos curem os seus males". O Estado somos nós e os banqueiros.
Claro que esta maciça intervenção estatal tem um componente irônico. Desde o fim da Guerra Fria, um dos mais importantes produtos de exportação global dos EUA tem sido sua ideologia de livre mercado. No entanto, leia os editoriais resignados dos últimos dias do "Wall Street Journal". Em duas semanas, o secretário do Tesouro Henry Paulson presidiu, em dólares, uma nacionalização mais maciça de patrimônio do que o ex-agente da KGB Vladimir Putin. Na Casa Branca ainda está o apatetado republicano George W. Bush, que prometeu um governo humilde. E na convenção presidencial republicana, que há menos de um mês consagrou o candidato antiregulamentação John McCain, entoava-se o coro que o maior problema com o governo americano era ser grande demais.
O maior herói republicano é o ex-presidente Ronald Reagan, aquele que pontificou que "governo não é a solução. Governo é o problema". Quinta-feira passada, no entanto, o capitalismo americano deu uma guinada. Perdeu-se a fé que o melhor caminho para a prosperidade seja deixar o mercado financeiro à solta. Esta fé passou a ser compartilhada nos anos 90 pelo governo democrata de Bill Clinton que abandonou o ceticismo sobre os benefícios da regulamentação. Com este furacão econômico dissipou-se a esperança de que os mercados, na hora do maior sufoco e pânico, tenham capacidade de autocorreção.
Em contrapartida, espera-se mais do governo. Seu papel deve ir além de proteger consumidores e pequenos investidores, estabelecer as regras do jogo e intervir de vez em quando para amortecer alguns choques como a crise da bolsa em 1987 ou o colapso, em 1998, do hedge fund Long-Term Capital Management. Como diz o historiador Richard Sylla, também da New York University, começou a era antiReagan: "O mercado é o problema. O governo é a solução".
As dúvidas e o ceticismo sobre o pacote de resgate podem gerar novos sobressaltos nos mercados globais nos próximos dias. Mas esta cautela é necessária. A pretensão de tornar agora o governo maior e mais eficiente pode levar o pëndulo excessivamente para a direção oposta.
Tudo muito reflexivo. Primeiro, vamos sobreviver à tempestade. Ela ainda não terminou. Estado, socorro!

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