05/09 - 00:59 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- As duas semanas das convenções presidenciais americanas cumpriram o seu papel: os partidos apresentaram seus candidatos ao país e animaram as bases. A eleição acontece em menos de dois meses e agora as campanhas estão embaladas, com os americanos ligados no duelo entre o democrata Barack Obama e o republicano John McCain. As convenções são espetáculos coreografados, mas mesmo assim oferecem emoções, ansiedades e surpresas.
A entrada em cena de Sarah Palin, como candidata a vice dos republicanos, leva o prêmio de ousada criatividade e nos permite dizer que, em termos imediatos, o maior ganho neste ciclo de duas semanas é para o partido de McCain. No caso democrata, um ganho foi a reconciliação pública entre a dinastia Clinton e o herdeiro do trono Obama.
Na condição histórica de primeiro negro concorrendo por um dos dois grandes partidos, Obama escolheu o quadragésimo-quinto aniversário do discurso "Eu Tenho um Sonho", de Martin Luther King, para aceitar a nomeação em Denver. O eloquente Obama desceu nas alturas no esforço para se aproximar do eleitorado entretido com a idéia de mudança, mas ainda indeciso para aceitar o candidato como o agente desta mudança e advogado de propostas envolventes, porém nebulosas.
Mas os republicanos não quiseram ficar atrás para produzir emoções. No dia seguinte à consagração de Obama, John McCain fez o anúncio espetacular de que Sarah Quem? Palin seria sua companheira de chapa. Uma decisão arriscada. A escalada de suspense culminou no discurso da governadora do Alasca na convenção republicana.
O partido se reunira em St. Paul esta semana consciente do fosso de entusiasmo que o separava do fervor democrata. No aqui e agora, Sarah Palin cumpriu a missão, o que confere um certificado de sanidade política a McCain. Campeã dos setores mais conservadores, a governadora do Alasca eletrizou a convenção com o seu discurso e finalmente conectou a base, em termos emocionais, com um candidato pelo qual ela nunca morreu de amores.
Como Obama, Palin tem prerrogativas históricas. É a primeira mulher dos republicanos escolhida para ser candidata a vice. Isto quer dizer que algum tipo de marco será alcançado em novembro: presidente negro ou vice mulher.
Com seu populismo conservador e retórica antiWashington (onde vive um tal de George W. Bush), ela retoma uma narrativa clássica dos republicanos amarrando a mídia e os democratas como um monstro com duas cabeças elitistas e liberais.
Para os democratas de Obama, o desafio é desmontar esta narrativa, vinculando a chapa McCain-Palin aos oito anos do desastre Bush, em economia e política externa. Os republicanos vão resistir e deixaram isto claro com o papel em segundo plano conferido ao presidente na convenção. O discurso de McCain na quinta-feira mostrou o empenho dos republicanos para enfatizar personalidade e caráter na campanha presidencial e não os temas, especialmente a economia, como almejam os democratas.
Neste debate sobre personalidade existe a insistência em tratar Obama como inexperiente (e ciente do ponto fraco, o candidato convocou o veterano senador Joe Biden para ser companheiro de chapa). A escolha de Sarah Palin (com seu currículo enxuto) complicou um pouco o argumento. Por ora, ela é um fenômeno (algo, ironicamente, associado ao estilo Obama). É cedo saber se irá persistir.
Outra jogada republicana é reforçar o papel patriótico de McCain, um herói genuíno, ex-prisioneiro de guerra e um comandante- em-chefe no qual os americanos podem confiar. Ademais, com o cuidado para não parecer racismo um lance é pintar Obama como uma figura exótica, sonhadora e, quem sabe, não americana. Existe esta determinação republicana de transformar a eleição em um referendo sobre Obama, abafando as ansiedades econômicas dos americanos e trazendo de volta para o primeiro plano as guerras culturais, nas quais Sarah Palin é uma combatente aguerrida.
Com a vice nesta frente de batalha, o velho soldado McCain não precisa fazer tanta média com os setores mais conservadores e assim tentar seduzir o eleitorado independente como sua retórica reformista e retomando a postura de independente que nem sempre segue um script. No seu discurso de quinta-feira, o candidato republicano não bateu com tanta contundência em Obama, como Palin na noite anterior, e fez referências ao seu prontuário de compromissos bipartidários no Congresso.
As próximas pesquisas darão uma medida mais precisa do impacto de duas semanas de convenções e das estratégias eleitorais das duas campanhas. Até a eleição de 4 de novembro é uma eternidade. As emoções e surpresas foram intensas até agora, mas ainda não se esgotaram.

Publicidade
McCain aceita candidatura com "agradecimento, humildade e confiança"