04/09 - 01:36 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- E Sarah Palin se apresentou à nação, aceitando a nomeação para ser vice do candidato presidencial republicano John McCain. No seu aguardado discurso na quarta-feira à noite na convenção em St. Paul, a governadora do Alasca e ex-prefeita de Wasilla (7.025 habitantes) acusou o golpe. Ela foi à carga contra a imprensa e a "elite de Washington" que está questionando suas qualificações para ser vice-presidente. Palin disse ter mais experiência executiva do que o senador por Illinois e candidato presidencial democrata Barack Obama. É guerra. Vem aí chumbo dos democratas, agora que viram como Sarah Palin sabe brigar, o que não é qualificação suficiente para ser vice.
Havia tanta ansiedade que o discurso da Sarah Palin na quarta-feira pode ofuscar o de McCain nesta quinta. Pela lógica, o frenesi sobre a escolha de um candidato a vice não deve durar muito tempo e nem ter uma influência decisiva no resultado eleitoral. A escolha do pateta Dan Quayle não impediu que o primeiro presidente Bush vencesse as eleições em 1988 (o candidato democrata Michael Dukakis ajudou bastante). Mas 2008 é um ano inusitado com a disputa entre o negro Obama e a mulher Hillary Clinton nas primárias democratas; os prematuros atestados de óbito político de McCain e esta Sarah Palin.
Para um jornalista, desmerecer a governadora do Alasca é um gesto agora tão arriscado como a decisão de McCain de escolhê-la como companheira de chapa. Horas antes do discurso de Palin na convenção, a campanha republicana já tinha lançado um ataque frontal contra a mídia, acusando-a de injusta, elitista e sexista. É uma velha tática acusar o mensageiro. Serve basicamente para a desviar a atenção de legítimas questões levantadas pela imprensa que a campanha de McCain gostaria de abafar.
Em contrapartida, é plausível perguntar se muitos jornalistas não passaram dos limites questionando se Sarah Palin negligenciou sua família (a destacar um filho com síndrome de Down) com suas ambições políticas, apenas a segunda mulher na história americana candidata a vice por um dos dois grandes partidos, a primeira dos republicanos. O debate aqui é interminável.
Curiosamente, Sarah Palin agora é campeã de conservadores que dias atrás achavam que mulher deveria ser exclusivamente dona-de-casa.
Quem criou o frenesi sobre Sarah Palin foi o próprio McCain, com sua escolha improvisada. Por Deus, pela pátria, pela caçada de alces, contra o aborto e contra a preservação do meio -ambiente (e muito a favor de exploração de petróleo em qualquer lugar), Sarah Palin injetou um necessário ânimo na base mais conservadora que nunca morreu de amores por McCain. E na quarta-feira, os convencionais em St. Paul deliraram. Mas a escolha de uma pessoa que somente tirou passaporte no ano passado também diluiu o argumento do candidato sobre a inexperiência, em particular em politica externa, de Barack Obama.
Mais do que isto, a escolha colocou em xeque a capacidade decisória de McCain. Será que ele examinou a fundo o que estava fazendo? Será que agirá de forma impetuosa para lidar com o Irã dos aiatolás ou a Rússia dos Putins?
Para reforçar sua própria marca de rebelde, John McCain exagera a imagem de Sarah Palin como uma reformista impetuosa e uma paladina implacável contra os lobbies corrruptos que assolavam o Alasca. Uma extensa reportagem na edição desta quinta-feira no "Wall Street Journal" mostra que Sarah Palin fez seus compromissos e exibiu flexibilidade como governadora. E nem vamos detalhar aqui as alegações de abuso de poder da parte da governadora.
De resto, a imprensa sensacionalista e blogs liberais deram o gancho para o assalto republicano contra a mídia ao devassar a vida pessoal da familia Palin, especialmente no escarcéu sobre a gravidez da filha adolescente da governadora.
Esta tática de Sarah-mulher-do-povo contra a imprensa-elitista-arrogante pode injetar ainda mais ânimo nos bolsões que já apóiam McCain,. Antes, estes bolsões tinham uma conexão política com o candidato (o que fazer? Do outro lado está o Obama), mas agora existe a emoção de travar uma guerra com Joana Palin D' Arc. Mas talvez não funcione junto a eleitores independentes e democratas frouxos que têm dúvidas legítimas se a vice republicana está qualificada para assumir o cargo supremo em caso de incapacitação de McCain (72 anos). E sem estes setores, o candidato republicano não tem chance em novembro.
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